A inflação que financiamos
Temos os juros reais mais
altos do mundo, uma moeda forte e valorizada em relação ao dólar.
Cenário que qualquer um apontaria como privilegiado, garantidor de
concorrência com o mercado internacional e com capacidade de manter
longe o fantasma da inflação. No entanto, não é isso o que estamos percebendo nos bolsos.
Relatório Focus, do Banco Central, divulgado em 7 de fevereiro, mostra
que o mercado elevou a estimativa de inflação pelo Índice Nacional de
Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2011 para 5,66%, ante 5,64% na
semana anterior. Já a Taxa Selic? Ah! Esta aí deve atingir os 12,50%,
até dezembro. Ou seja, nem mesmo o absurdo aumento da taxa de juros, que costuma
resfriar nossa economia, somada à redução de crédito acima de 24
parcelas com ameaças diretas à geração de empregos, conseguirá derrubar a
inflação que chega subtraindo renda e ganhos salariais que os
trabalhadores conseguiram negociar no ano passado. Segundo o coordenador de Relações Sindicais do Dieese, José Silvestre
Prado de Oliveira, 97% das 290 negociações concluídas nos primeiros
seis meses de 2010 resultaram em ganhos salariais iguais ou acima da
inflação. Se analisadas apenas as negociações que resultaram em ganhos
salariais reais (descontada a inflação), o resultado atingido no
primeiro semestre de 2010 foi melhor dos últimos dois anos. No ano
passado, 87,9% (255 negociações) das campanhas resultaram em aumentos
acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), medido pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Então, qual a origem dessa inflação corrosiva? Economistas afirmam
que a atual inflação brasileira surge com o aumento dos alimentos.
Estes, por sua vez, subiram muito nos últimos tempos devido à alta
internacional dos preços agrícolas, com ênfase nas carnes, cereais,
grãos e açúcar. O mais curioso é que são esses mesmos produtos que fazem com que o Brasil tenha destaque no ranking do comércio internacional. Entre 2000 a 2010, as exportações totais brasileiras pularam de uma
média de 57,9 bilhões de dólares no início do período para 200 bilhões
no final. No mesmo tempo houve um forte aumento de participação dos
produtos primários – de 44% da pauta de exportações (2000/2002) para
cerca de 60% em 2010, considerados neste cálculo produtos básicos e
semi-manufaturados. Daí nos perguntamos: se estamos entre os grande exportadores desses
produtos porque temos preços tão altos nas prateleiras dos
supermercados? A resposta é muito simples: Os preços são puxados para
cima pelos importadores destes produtos agrícolas. Os produtores agrícolas brasileiros -- subsidiados até à alma pelo
Banco do Brasil, ou seja com dinheiro público - têm plena liberdade de
estabelecer os preços de seus produtos. E o fazem, claro, a partir dos
preços que conseguem na hora da exportação. E o pior, por não haver uma política séria por parte do governo, os
grandes empresários do mundo agrícola mantêm aqui, no mercado interno, o
mesmo preço praticado nas exportações. Resultado: nós pagamos o pato duas vezes. O Brasil investe em
subsídios agrícolas para se manter competitivo no mercado internacional.
Mas os produtores agrícolas, em atuação típica dos escorpiões, decidem
cobrar dos consumidores brasileiros os mesmos preços que conseguem lá
fora. E o governo? Ah! O governo não intervém nos preços internos e
apenas contabilizam no PIB o que se fatura nas exportações. Ou seja, os grandes produtores rurais e frigoríficos ficam com os
lucros imensos e nós, cidadãos e trabalhadores, amargamos a conta da
inflação. Também sobra para os trabalhadores a conta da inflação, que significa
transferência de renda para os grupos que se protegem. Os grandes
produtores agrícolas se protegem e ampliam seus ganhos estabelecendo
preços com parâmetros internacionais, impunemente. E a temida inflação?
Esta vai devagar crescendo como fermento de pão. A prática de segurar os juros e, manter o câmbio em equilíbrio, não são suficientes para espantar o mal inflacionário. Se de fato, é uma preocupação
manter o fantasma da inflação longe do sonho de real desenvolvimento
brasileiro, é necessário que o governo se posicione diferente. Aplique
regras que segurem a alta dos produtos com políticas públicas de
interesse do cidadão-consumidor. Fonte: Lourenço Prado - http://www.incorporativa.com.br/ (11/02/2011)








