Após seis meses, BC aumenta taxa de juros em 0,5 ponto
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco
Central (BC), pela primeira vez sob o comando de Alexandre Tombini,
decidiu ontem retomar o aperto monetário após seis meses. Conforme a
previsão da maioria dos economistas, a taxa básica de juros (Selic)
subiu 0,5 ponto percentual, ao passar de 10,75% para 11,25%.
De
acordo com nota do Copom, a decisão foi unânime, sem viés, e visa dar
"início a um processo de ajuste da taxa básica de juros, cujos efeitos,
somados aos de ações macroprudenciais, contribuirão para que a inflação convirja para a trajetória de metas".
Para o professor de macroeconomia da Escola de Economia
de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP), Rogério Mori, a
alta da Selic é explicada pelo fato de que o "Copom enfrenta pressões
inflacionárias de curto prazo que devem ser intensificadas nas próximas
semanas, sobretudo, no grupo alimentação. Isso se deve ao aumento das
chuvas que afetam a oferta de alguns produtos agrícolas, a provocar a
alta dos preços", afirma. "Some-se a isso o fato de que foi a primeira
reunião do Copom no novo governo, que deverá mostrar já na partida seu
compromisso de manter a inflação em um patamar baixo", complementa.
"A
elevação da taxa básica de juros para 11,25% era esperada e necessária
diante dos dados sobre a expansão da economia, a situação externa e os
índices de inflação", afirmou o Instituto Brasileiro de Executivos de
Finanças (Ibef-SP). A explicação é de que o instituto, por meio de seus
executivos, percebe um constante crescimento
de demanda por bens e serviços e dificuldade de atender clientes na
mesma velocidade. "Entendemos que o equilíbrio entre preços, demanda e
produção somente será conseguido com novas elevações da Selic, já a
partir da próxima reunião do Copom, em março", conclui.
A
Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) lamentou a
necessidade de elevar a taxa de juros. "A alta da Selic seria
desnecessária se o governo tivesse cumprido a promessa de fazer, em
2010, um forte ajuste fiscal, reduzindo gastos e o peso do Estado na
demanda interna." Para o presidente da CNDL, Roque Pellizzaro Junior,
esse patamar de juros é um desestímulo ao investimento privado, o que
prejudica também a formalização no mercado de trabalho e o fortalecimento da massa salarial.
"No
atual contexto externo de juros e crescimento baixos nos países
desenvolvidos, o aumento da taxa Selic estimula ainda mais a entrada de
dólares e a consequente valorização do real, que aliada ao aumento dos
custos de financiamento impõe perdas significativas à competitividade do
produto nacional", lembrou a Federação das Indústrias do Estado do Rio
de Janeiro (Sistema Firjan).
Já Paulo Skaf, presidente da
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), considerou um
erro a decisão do Banco Central. "O Brasil não pode mais ser prejudicado
com o crescente aumento da taxa de juros. Isso é um absurdo. Com esse
dinheiro poderíamos viabilizar a construção de mais 390 mil casas do
Programa Minha Casa Minha Vida, ou custear 2/3 do Programa Bolsa Família
no ano inteiro de 2011. Alternativamente, daria para o Sistema de Saúde
realizar 14 mil internações adicionais", afirmou.
Para o gerente
executivo da Unidade de Política Econômica da Confederação Nacional da
Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, a decisão foi precipitada e
compromete a capacidade de crescimento de longo prazo da economia.
Segundo ele, os efeitos das medidas de contenção do crédito adotadas em
dezembro ainda não foram plenamente observados, o que ocorrerá nos
próximos meses. "A elevação dos juros é o caminho mais fácil de controle
de preços, porém o mais prejudicial. O impacto recai unicamente no
setor produtivo, afetando negativamente a atividade e o emprego",
assinalou. O vice-presidente e responsável por estudos econômicos da
Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e
Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, afirmou que já
esperava um aumento da taxa Selic de 0,50 ponto percentual. Entretanto,
para ele, independente de qual fosse a decisão, é pouco o impacto nas
taxas de juros das operações de crédito. "É possível até mesmo com a
elevação da taxa básica de juros que as taxas de juros das operações de
crédito não venham a ser elevadas. Isto é possível tendo em vista dois
fatores: queda nos índices da inadimplência; e maior competição no
sistema financeiro", entende Oliveira.
Novas altas
Especialistas
entrevistados pelo DCI acreditam que haverá novas altas no decorrer do
ano. "Nossa expectativa é que o Banco Central elevasse a taxa em 0,5% já
neste encontro. Acreditamos que esse movimento se repita por mais três
vezes, a elevar a taxa de juros a 12,75% no final deste ano", avalia
consultor econômico da WinTrade, José Góes. De acordo com o último
relatório Focus divulgado pelo Banco Central, o mercado acredita que a
taxa Selic terminará 2011 a 12,25% ao ano.
Fonte: http://www.dci.com.br/ (21/01/2011)








