Brasil deve continuar crescendo apesar da crise norte-americana
O real tamanho e impacto da crise imobiliária norte-americana no mercado mundial e o quanto a economia chinesa pode continuar crescendo são fatores que influenciam diretamente os cenários macroeconômicos mundiais e, em especial, o Brasil.
O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), André Moreira Cunha diz que 2008 pode marcar um período de mudanças no mercado externo, depois de uma fase favorável, como revela a seguir em entrevista ao Jornal do Comércio, na qual, analisa as relações entre os países e a posição do Brasil nesse contexto.
Jornal do Comércio - Qual o cenário econômico mundial atual?
André Moreira Cunha - Estamos assistindo ao que talvez venha a ser uma mudança no cenário externo depois de um longo período, de 2003 até começo deste ano, no qual tínhamos um ambiente excepcionalmente favorável, com impactos muito fortes e positivos sobre países emergentes. Isso se deveu à influência de alguns fatores, como o crescimento alto e espraiado. Todas as regiões do mundo passaram a crescer acima das médias dos últimos 20 ou 30 anos. A América Latina, que vinha crescendo 2% ou 2,5% desde os anos 80, está em 4% ou 5%. A África vem crescendo 5% ou 6%, a Ásia está seguindo sua trajetória de desenvolvimento acelerado sob a liderança chinesa e até mesmo a Europa, que vinha crescendo menos de 2% ao ano, aumentou sua média. E a economia norte-americana, que vinha num ritmo de 3% a 4%, está desacelerando. Outros aspectos são os juros reais da economia mundial, ainda bastante baixos, e uma combinação de crescimento forte com inflação baixa. Essa condição empurrou as economias emergentes, entre elas a brasileira, que seguiu sendo uma espécie de patinho feio, especialmente entre os grandes países. Crescemos mais do que nos últimos anos, pulando de 2,5% ao ano para 3,5%, mas o mundo também cresceu. A diferença do Brasil para o mundo vem diminuindo, mas segue acima de 1% do PIB.
JC - O que levou a esse cenário positivo e por que surgiu uma crise?
Cunha - A combinação da economia norte-americana crescendo fortemente com juros baixos e puxada pelo consumo e pelo setor imobiliário levou a essa realidade. O estouro da crise imobiliária sinaliza menos crédito e o temor é de que pessoas endividadas comprem menos. Qual o impacto internacional dessa crise americana? Os Estados Unidos importavam mais do que exportavam anualmente em cerca de 1 trilhão de dólares. Isso rebatia as exportações chinesas e do resto do mundo. Por outro lado, um outro fator estimulante é a concretização da promessa chinesa. A China tem um peso sobre a economia mundial muito significativo e vem puxando o crescimento no globo. Essa expansão chinesa tem enorme demanda por matérias-primas, que tem feito com que o preço de qualquer matéria-prima agrícola ou mineral alcance níveis recordes desde 2002, um aumento médio de 400%. Mas, com o crescimento da sua produção industrial, a China foi capaz de inundar o mundo com produtos baratos, neutralizando o aumento dos preços das matérias-primas.
JC - Quais são possíveis repercussões dessa instabilidade?
Cunha - Neste momento, a crise imobiliária nos Estados Unidos coloca em cheque a capacidade de sustentar a perna norte-americana nesse ciclo e nós ainda não temos uma avaliação da profundidade dessa crise. O mundo hoje não depende tanto da economia americana como já dependeu no passado. A China é outro centro de dinamismo, mas a questão é se a Ásia e a Europa vão continuar crescendo num ritmo forte apesar da queda americana. Se isso ocorrer irá contrabalançar essa retração? Será que a instabilidade dos mercados financeiros vai mudar o humor dos investidores financeiros a ponto de comprometer o cenário mais favorável de dinheiro mais barato para os emergentes e de investimentos produtivos ao redor do mundo? Não sabemos ainda se já chegamos ao fundo do poço na questão imobiliária. Entramos numa zona de maior instabilidade, na qual o Brasil vem respondendo bem a esse cenário, e o declínio americano não contaminou a Ásia no lado real. Já no lado financeiro, cada notícia nova de balanço de banco dos Estados Unidos ou de previsão do Fed (banco central americano), as bolsas do mundo desabam, mas isso não significa que as empresas não estejam indo bem.
JC - E com relação a economia brasileira?
Cunha - Seguindo a média do Banco Central, se prevê o crescimento de 4,7% em 2007 e 4,4% em 2008, sinalizando uma perda relativa de dinamismo. Eu acho que é possível que isso aconteça porque nossa economia não depende tanto do setor externo. Há um estímulo interno relacionado com o aumento na massa de rendimentos porque o emprego cresceu, a renda média está se recuperando lentamente, os programas de transferência de renda e aumento do salário mínimo têm contribuído favoravelmente nesse aspecto, a expansão do crédito para pessoa física, especialmente no crédito consignado, tem ajudado, as empresas estão com índices de lucratividade bastante aceitáveis, maiores do que lá fora e com menor endividamento, ou seja, estão relativamente saudáveis. Neste momento, não dá para dizer que o Brasil vai entrar em crise, mas também não dá para afirmar que vai estar crescendo mais do que estamos.
JC - O câmbio deve continuar com a atual paridade?
Cunha - A tendência é o real se manter forte. Isso se deve a dois motivos. Primeiro, o dólar está se enfraquecendo lá fora. A moeda que mais ganhou valor de 2003 para cá foi o Real, em função de uma coisa negativa. A política monetária do Banco Central está exageradamente dura para o momento atual, o que tem atraído dólares muito fortemente. A outra questão é uma espécie de cumulatividade positiva. Os investidores olham para o Brasil e vêem que está melhor do que estava, que a perspectiva do País em atingir o investment grade, os preços dos ativos do Brasil se comparados com outras economias ainda são atraentes. Isso cria um enorme incentivo para os recursos entrarem. A informação de que o real tende a se fortalecer por si só atrai dólares. E nesse momento os investidores olham para o Brasil e dizem que o real vai se fortalecer ainda mais.
O tema será discutido amanhã (27/11), a partir das 14h, no seminário Cenários Macroeconômicos e Políticos 2008, organizado pela Fundação CEEE de Seguridade Social, no Teatro da PUC, prédio 40, em Porto Alegre. Além de Cunha, serão painelistas o ex-secretário nacional adjunto do Ministério do Planejamento, Raul Velloso, e o economista do Unibanco, Alexandre da Cunha Mathias.
Leandro Brixius
Fonte: http://jcrs.uol.com.br








