Brasil deve priorizar integração econômica regional
O Brasil deve produzir para um mercado integrado na América Latina, construindo cadeias de produção regional e dividindo com os países vizinhos a dinâmica de um crescimento econômico. Assim mesmo, o País não deve descuidar do mercado interno, virando-se para o mercado externo. A avaliação é do economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adhemar Mineiro, que concedeu entrevista ao PortoGente, do Rio de Janeiro.
Nesta entrevista, o economista analisa as perspectivas das exportações brasileiras de commodities e de manufaturados, a relação Brasil-China, a política econômica e industrial e o que pode tornar o País mais forte na economia mundial.
PortoGente - Quais as perspectivas das exportações brasileiras para este ano?
Adhemar Mineiro – As perspectivas vão depender muito de dois elementos, a dinâmica da economia mundial e a taxa de câmbio entre o real e as demais moedas do mundo. No caso da dinâmica da economia mundial, a menos de uma nova forte turbulência (que não pode ser descartada), o mais provável é uma melhora em 2010, o que seria positivo para as exportações brasileiras. No caso da taxa de câmbio, a política monetária praticada pelo Banco Central segue forçando a entrada de moeda internacional buscando as rentáveis aplicações oferecidas aqui dentro, e valorizando o real. Isso torna mais caras as exportações brasileiras, e mais baratas as importações do resto do mundo. Desse ponto de vista, a menos que algo seja feito para alterar esse rumo, as perspectivas são pessimistas, especialmente para a área de produtos manufaturados de maior valor agregado.
PortoGente - O Economist, recentemente, faz uma chamada irônica para o que ele define "Medo do dragão", referindo-se ao primeiro colocado da China como exportadora em 2009, ultrapassando a Alemanha. O Brasil também deve ter medo desse dragão?
Adhemar Mineiro – O Brasil construiu com a China uma relação bem contraditória. O Brasil é um grande exportador de commodities agrícolas e minerais para a China, e um grande importador de produtos industrializados. Desse ponto de vista, no agregado o Brasil pode até equilibrar o comércio com a China (pois quanto mais esta crescer, mais importará produtos básicos do Brasil), mas seguramente os empresários brasileiros da indústria e os trabalhadores industriais deveriam temer a importação massiva de produtos manufaturados chineses.
PortoGente - Qual o cenário mundial desfavorável às exportações brasileiras?
Adhemar Mineiro – É difícil falar de "exportações brasileiras", no agregado. O Brasil é basicamente um grande exportador de produtos manufaturados para os EUA e a América Latina; e um grande exportador de produtos intensivos em recursos naturais para a Europa e a Ásia. Assim, a recuperação das economias da América Latina e dos EUA seria o quadro mais benéfico para o Brasil, pois incentivaria a exportação de produtos industriais, de maior valor agregado. Mas parece o cenário mais difícil de se concretizar. O quadro mais favorável seria o de um crescimento razoável da economia mundial, com particular desempenho positivo dos EUA e da América Latina. O mais desfavorável, um acirramento da crise estadunidense, que leve a novas desvalorizações do dólar estadunidense, redução das importações por parte daquele país, e aumento da agressividade dos EUA na busca por mercados internacionais para poder se safar da crise, ocasião em que os EUA não apenas deixa de ser mercado para o Brasil, como vira um competidor de muitos produtos brasileiros.
PortoGente - O Governo Federal deve incentivar a exportação?
Adhemar Mineiro – Um país com as características do Brasil (grande, com um enorme mercado consumidor interno ainda em constituição, com grandes carências e muito por ser realizado) deveria centrar sua política econômica e industrial buscando aproveitar o dinamismo do seu próprio mercado consumidor. Isso não quer dizer não incentivar a busca de mercados externos, mas estes não deveriam ser o centro das nossas preocupações. Além disso, no caso de bens primários, existe uma discussão de quem atender (no caso de bens agrícolas) e de estratégia, no caso de produtos minerais. Até que ponto é razoável que um país onde a população ainda tem grandes problemas de nutrição seja um mega-exportador de alimentos? Quais as formas de atender à demanda futura do País por produtos minerais (como o ferro, por exemplo) e combustíveis fósseis (como o petróleo)? Assim, se deveria procurar exportar primordialmente produtos industrializados, e de mais alto valor agregado. Não quer dizer não exportar produtos agrícolas, mas as prioridades da produção agrícola deveriam ser repensadas, na medida em que cresce a renda dos mais pobres aqui dentro. E também não quer dizer não exportar produtos minerais, mas fazê-lo de acordo com definições estratégicas.
PortoGente - Ser um país exportador é bom para o Brasil? Por que?
Adhemar Mineiro – Sempre depende da perspectiva que se vê. Pode-se dizer que nos últimos anos o crescimento das exportações, e particularmente do saldo comercial brasileiro com o exterior, serviu para reduzir a vulnerabilidade externa da economia brasileira, fazendo com que resistíssemos mais às turbulências, e não fôssemos abalroados por crises no balanço de pagamentos que foram frequentes nos dois governos do anterior presidente Fernando Henrique Cardoso. Entretanto, como eu falei antes, no caso de um país como o Brasil é muito mais importante dinamizar o seu mercado interno. Sem abrir mão de uma política de comércio exterior que ajude a garantir o abastecimento interno e gerar alguma tranquilidade nas contas com o exterior.
PortoGente - Recentemente, o presidente Lula cobrou da Vale a criação de uma siderúrgica para termos produto com maior valor agregado, e não sermos apenas exportadores de commodity.
Adhemar Mineiro – O presidente está certo em cobrar que se busque exportar produtos de maior valor agregado. Assim, se o país exportar aço ao invés de minério de ferro estará em uma situação melhor. Se exportar carros, aviões e máquinas ao invés de chapas de aço, estará melhor ainda. É um processo que deve ser perseguido, e o País deve ter uma política macroeconômica (com uma taxa de câmbio favorável à produção interna) e políticas industrial e de financiamento que operem nessa direção. Mas volto a lembrar que a ênfase no caso de países como o Brasil deve ser o atendimento de seu mercado interno, que é muito mais capaz de gerar dinamismo para a economia do que o setor externo.
PortoGente - Num período de longo prazo, por exemplo, nos próximos dez anos, o Brasil poderá estar exportando o que e para quem?
Adhemar Mineiro – Depende das políticas de desenvolvimento que adotar nos próximos anos. Do meu ponto de vista, deveria priorizar o processo regional de integração, e buscar estar produzindo para um mercado integrado na América Latina, que inclua o mercado brasileiro, o Mercosul e outros, construindo cadeias de produção regional e compartilhando com os vizinhos a dinâmica do crescimento econômico. Mas é muito difícil, no meio de um cenário internacional tão instável, fazer projeções. Se fôssemos só projetar o presente, o Brasil estaria exportando maciçamente commodities agrícolas e minerais para o mercado chinês, o que não me parece a situação ideal. Mas, como no futebol, o "se" não joga em economia, de modo que creio que o cenário está aberto a respeito do futuro.
Fonte: www.portogente.com.br








