Câmbio leva crise ao setor moveleiro de Santa Catarina
A desvalorização do dólar atingiu o setor moveleiro e prejudica especialmente as MPE; para integrantes do APL de Móveis do Oeste de Santa Catarina, profissionalização e design podem solucionar crise.
Enquanto o dólar estava em alta, tudo andava bem no setor moveleiro. Isto é, sem grandes transtornos, apesar da falta de preparo da maioria das empresas para exportar. Os produtos também estavam valorizados no mercado interno. Quando veio a desvalorização da moeda norte-americana, nos últimos anos, o setor mergulhou numa crise.
As grandes empresas exportadoras redirecionaram seus negócios para o mercado interno. De repente, as micro e pequenas empresas, que atuam majoritariamente no consumo interno, tiveram de enfrentar a concorrência das grandes fabricantes de móveis do País.
Esta é a situação atual do setor moveleiro como um todo e que também atinge o Arranjo Produtivo Local (APL) de Móveis da Região Oeste de Santa Catarina, integrado por 356 micro e pequenas empresas, segundo Denílson Coelho, coordenador do programa estadual voltado ao setor no Sebrae em Santa Catarina. Para ele e Guilherme Jacobus, secretário-executivo da Associação Moveleira do Oeste de Santa Catarina (Amoesc), nem a valorização do dólar nem a redução de impostos e tributos são a solução para a crise.
O desenvolvimento e a consolidação do setor dependem da profissionalização das empresas e de investimentos em design para valorizar a produção nacional, conquistar novos nichos de mercado e aumentar as vendas, concordam os dois.
"Estamos trabalhando na internacionalização das empresas, mas a grande maioria delas ainda não está preparada em termos de ferramenta de gestão", avalia o coordenador do Sebrae em Santa Catarina. Às vezes falta informação até sobre os custos de produção em algumas empresas, revela. Entre as 356 participantes do APL de Móveis da Região Oeste de Santa Catarina, apenas cerca de dez empresas exportam. Os móveis feitos em pinus são a marca desse arranjo, que abrange 102 municípios. O maior deles é Chapecó.
Móveis reproduzidos
Geralmente os compradores internacionais chegam à região com os modelos em desenhos ou protótipos dos produtos a serem reproduzidos. "Na verdade eles vêm atrás de preço e as empresas acabam só reproduzindo o que os clientes querem", esclarece Denílson. Essa situação não é a ideal para o desenvolvimento e consolidação do APL. "Os negócios baseados na coleta de preços são instáveis. Se os compradores encontrarem custos mais reduzidos em outros países, imediatamente cessam as compras aqui", justifica.
A queda do dólar também tem um lado positivo. Com a moeda norte-americana em baixa é o momento de importar insumos e maquinários. "Agora é propício, para quem tem recursos financeiros, modernizar suas fábricas", recomenda.
Entre as grandes carências do setor moveleiro, Denílson destaca a falta de estrutura de vendas e inteligência comercial para competir. A concorrência entre os pólos e arranjos produtivos deve ser administrada, de modo a não se invibializarem. Essa é uma das discussões, que deverá ser levada ao congresso moveleiro que acontece nos dias 28 e 29 de junho em Arapongas.
Uma campanha do setor visando ao aumento do consumo de móveis no País é outro tema a ser tratado no evento. Pesquisa realizada pela Abimóvel e pelo Sebrae aponta que os brasileiros investem mais na compra de eletroeletrônicos do que móveis, nos últimos anos.
A produção moveleira também precisa estar atenta a novos nichos de mercado, segundo Denílson. Todas as empresas praticamente produzem linhas de móveis residenciais e de escritórios. Existem outros segmentos e setores que compram mobiliário, essa informação será divulgada no I Congresso Nacional Moveleiro em Arapongas através de pesquisa realizada. A troca de informaçõpes é fundamenntal para melhorar a vendas e a performance do setor. "É melhor fazer parcerias, trocar idéias e informações para elevar os preços e vendas", segundo Denílson.
Estilo próprio
"A única solução para a crise é a diferenciação dos nossos produtos. Temos de investir em design e criar nosso estilo para conseguir mercado e melhores preços", afirma com veemência Guilherme Jacobus, secretário-executivo da Associação dos Moveleiros do Oeste de Santa Catarina (Amoesc), composta por 124 associados. A entidade tem oito anos de atividades.
Segundo Guilherme, a produção de móveis na região, com ênfase nas linhas de dormitório e cozinha, é totalmente comercializada em Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais. As exportações ainda não são significativas e geralmente destinam-se aos Estados Unidos e Espanha. Nos últimos 12 meses, as vendas para os países da América Central diminuíram muito, informa.
Para desenvolver o setor moveleiro brasileiro, é preciso pesquisar os nichos no mercado externo nos quais os chineses não estão atuando, sugere o secretário executivo da Amoesc. "Não podemos concorrer com os chineses", ressalta. A baixa qualidade dos produtos da China é coisa do passado. "Hoje é praticamente impossível diferenciar a origem dos móveis, se são do Brasil ou da China. A qualidade é a mesma", alerta.
A cultura do associativismo ainda está chegando ao setor moveleiro, de acordo com Guilherme. O design é pouco explorado. Raras são as empresas no APL de Móveis da Região Oeste de Santa Catarina que contam com designers, revela. "Com a mesma matéria-prima podemos produzir peças com valor agregado só utilizando os recursos do design", justifica. Permanecer reproduzindo móveis no estilo europeu ou norte-americano, de acordo com o gosto dos compradores internacionais, não vai gerar a consolidação e sustentabilidade do setor.
"Não adianta o dólar subir, essa não será a solução. Temos de investir na profissionalização das empresas e no design", insiste Guilherme. A crise do setor moveleiro, portanto, pode ter sido aprofundada pela desvalorização do dólar, mas é apenas a ponta do iceberg do problema.
Fonte: www.global21.com.br








