Comércio Exterior - Ajuste das empresas - 10/03/2006
As empresas estão entrando em novo ciclo de ajuste; estão se ajustando ao dólar baixo. Tomam decisões para sobreviver que são boas para elas, mas, em seu conjunto, podem não ser boas para o país
O economista José
Roberto Mendonça de Barros, acha que o comércio exterior terá um efeito
negativo no PIB este ano. A balança comercial continuará alta, com
saldo de US$ 40 bilhões, mas as importações aumentarão, substituindo
produção local. Empresas brasileiras elevarão investimento no exterior
para continuarem competitivas no mercado internacional. Nada disso é
necessariamente ruim, mas pode ter um impacto negativo no PIB.
O economista, que já foi secretário de Comércio Exterior e é grande
conhecedor da economia brasileira, acha que as empresas estão entrando
em novo ciclo de ajuste; estão se ajustando ao dólar baixo. Tomam
decisões para sobreviver que são boas para elas, mas, em seu conjunto,
podem não ser boas para o país.
Na visão de José Roberto, a competição dos produtos asiáticos com os
brasileiros em terceiros mercados vai se acirrar, e muito; entre outras
razões, porque a produtividade industrial brasileira estagnou.
Até outubro de 2005, os empresários não acreditavam que o câmbio
ficaria neste nível, imaginavam que a valorização do real era
temporária e, em seus cenários para 2006, previam um câmbio de R$ 2,40
a R$ 2,50 para o começo do ano.
- Só a partir do fim do ano é que passaram a admitir que o câmbio vai
seguir apreciado por um bom período, e que é preciso, portanto, ajustar
a estratégia que vinha sendo perseguida - diz.
São várias estratégias, na verdade. Todas juntas mostram que a economia
pode estar entrando em outro ciclo de ajuste. Da mesma forma que, em
2002, os empresários verificaram que tinham de investir em exportação -
e isso garantiu estes anos de crescimento da exportação - agora a
tendência é aumento de importação para redução de custos e investimento
em outros países.
José Roberto acha que as exportadoras seguirão quatro rotas principais.
A primeira será seguida pelos produtores de commodities, cujos preços
estão em alta. Eles continuarão exportando tentando compensar a queda
do câmbio com aumento dos preços. Em 2005, conseguiram, mas está cada
vez mais difícil. E isso leva à segunda rota: empresas que começam a
pensar em instalar fábricas no exterior, principalmente China, Rússia,
Espanha, Bélgica, Estados Unidos, México Chile, Colômbia, Europa
Oriental, América Central.
- Os dados já mostram uma considerável elevação do investimento
brasileiro no exterior, que foi superior a US$ 1,2 bilhão em janeiro.
Conheço vários casos nas áreas têxtil, alimentar, artefatos de metal,
autopeças, mecânica, bens duráveis de consumo, química, material de
transporte - conta ele.
Mesmo fazendo todo o sentido do ponto de vista da empresa, José Roberto
acredita que pode não ser bom para o país, principalmente porque o
detonador desta ida para o exterior é o câmbio baixo e não uma
estratégia de globalização das empresas.
O terceiro movimento para se adaptar ao câmbio é o que sempre se usa em
caso de dificuldade: troca do empregado antigo por um novo e troca de
componentes produzidos aqui por importados, mais baratos. Isso reduz
custo de produção. E já está ocorrendo. Segundo José Roberto, há
empresas que reduziram, desta forma, com turn over, 10% do custo da
folha salarial. Uma outra empresa foi à China para comprar um forno que
ficaria mais caro se comprado no Brasil. Lá soube que tinha quatro
tipos de fornos diferentes e para pronta entrega.
- O setor de máquinas vai sofrer muito. Como neste mercado os contratos
são feitos para entrega em 12 meses, não vai se sentir muito num
primeiro momento, mas depois pode pesar bastante. Com este ganho de
escala, o setor de máquinas na China pode cobrar substancialmente mais
baixo.
O quarto grupo de empresas, sem conseguir exportar, vai se voltar mais
para o mercado interno, mas aqui sofrerá uma dura competição exatamente
pelo aumento da importação incentivada pelo câmbio.
- Em resumo, vejo em 2006 um ano de fortes movimentos estratégicos e
táticos como resposta ao barateamento do dólar e da elevação da
competição em todos os mercados. Os empresários vão lutar ainda com a
contínua elevação da carga tributária, com o medíocre crescimento da
economia em 2005 e a piora nas condições de infra-estrutura.
Entretanto, navegar é preciso, e muitas das mudanças antevistas vão
resultar em empresas mais robustas e competitivas.
A situação brasileira agora é, segundo ele, quase única no mundo. De um
lado, tem os estímulos dados pelo crescimento mundial que elevam as
exportações; por outro, os juros elevadíssimos atraem mais capital e
seguram o crescimento e, portanto, a importação. O Brasil, então,
acumula altos superávits comerciais e grande fluxo de capitais que
levam à grande valorização da moeda. Com as entradas de capitais, o
país derrubou o endividamento e isso diminuiu mais ainda o risco-país.
Tudo leva a mais valorização do câmbio. José Roberto acha que pode
facilmente chegar a R$ 2 a cotação do dólar e isso antes que os efeitos
da queda dos juros e de algum crescimento produzam a força contrária à
valorização cambial.
A situação abre oportunidades para várias empresas para se ajustar,
crescer e ficar competitivas, mas abre um fosso no qual outras cairão.
É da vida empresarial, mas o fenômeno agora é criado por uma conjuntura
muito específica. E tudo isso pode criar desequilíbrios para o país.
Fonte: www.global21.com.br








