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COMÉRCIO INTERNACIONAL - Câmbio não derruba dinamismo exportador - 22/03/2006

Vendas externas cresceram 22% em 2005, acima da média mundial de 14%; expansão é a 13ª maior entre 56 países.

     Apesar da desvalorização do dólar, o Brasil não perdeu dinamismo exportador em relação ao resto do mundo. A taxa de crescimento das vendas externas foi menor em 2005 se comparada com o desempenho de 2004, algo que ocorreu praticamente com todos os países.

      Ainda assim, o Brasil teve a 13ª maior taxa de crescimento das exportações de 2005. No ano anterior, o país havia crescido mais, mas obtivera a 14ª melhor taxa. Ou seja, em termos relativos, a posição brasileira até melhorou.

      A Folha elaborou o ranking das taxas de crescimento das exportações com dados coletados pelo Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), a pedido do jornal. Nem todos os 56 países utilizados na pesquisa já divulgaram todos os dados de 2005. Alguns têm dados até outubro, por exemplo. O levantamento considerou a evolução das vendas externas nos doze meses terminados no último período para o qual o país tinha dados disponíveis.

      Mais relevante do que a posição no ranking é a constatação de que o câmbio não fez, a despeito do receio e da reclamação dos empresários, com que o país perdesse espaço no mercado mundial. Pelo menos não até o final do ano passado. Pelo contrário, dentre 56 países que exportam mais de US$ 7 bilhões anuais, o Brasil atingiu a 13ª melhor taxa de aumento das exportações.

      Em um ano em que as exportações mundiais devem ter crescido algo em torno de 14%, as vendas externas brasileiras registraram expansão de 22%. Não foi um desempenho tão bom quanto o de 2004, quando as exportações brasileiras cresceram 32%.

      Em 2004, o comércio mundial bateu todos os recordes já registrados pela OMC (Organização Mundial do Comércio), com as exportações crescendo à velocidade inédita de 21% em termos nominais. Assim, enquanto a taxa de crescimento das vendas externas brasileiras foi 52% maior do que a registrada pelo mundo em 2004, em 2005 ela foi 57% superior.

      No ano passado, houve uma desaceleração generalizada das exportações globais. Dos 12 países que estão à frente do Brasil no ranking, apenas 2 viram suas exportações crescerem, no ano passado, mais rapidamente do que em 2004: Rússia e Angola, ambos exportadores de petróleo.

      Indústria

      Claudio Vaz, presidente do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), diz ser compreensível o bom desempenho dos exportadores em 2005, mesmo considerando o obstáculo do real forte. Ainda assim, complementa o representante da indústria, o Brasil não sairá ileso da experiência do dólar barato. "As exportações brasileiras podem ser divididas em dois grandes blocos, o dos exportadores compulsórios e o dos que exportam por decisão estratégica", explica ele.

      A razão para a resistência das vendas externas está nas características dos dois blocos, argumenta o presidente do Ciesp.

      No caso dos exportadores compulsórios -empresas que não têm a opção de vender seus produtos no mercado interno, como as mineradoras-, simplesmente não há alternativa. Já no caso dos que exportam como estratégia de negócio global, o impacto deve ser sentido, mas no longo prazo.

      Vaz dá o exemplo de uma montadora que, após dois anos desenvolvendo um novo modelo, faz um contrato de exportação de dois anos. A despeito do câmbio, a empresa precisa cumprir seu contrato, o que cria resistência para a reação das vendas externas às oscilações do valor do dólar.

      "Mas o Brasil já perde investimentos nos produtos que substituiriam os atuais em uma nova onda de exportações", diz ele, lembrando que, nos novos contratos, pode ser mais lucrativo fazer negócio com a subsidiária chinesa da montadora.

      De fato, as grandes responsáveis pelas exportações brasileiras são as grandes empresas, que respondem por nada menos que 89% do total exportado pelo Brasil. Apesar de menos vulneráveis à conjuntura econômica, elas não estão ilesas aos seus impactos.

      Vaz levanta uma velha bandeira dos exportadores para mostrar que o governo poderia atuar para conter a escalada do real em relação ao dólar. Os industriais pedem liberalização cambial, com a eliminação da exigência de que os exportadores vendam o câmbio 210 dias depois do embarque.

      Com a mudança, os exportadores poderiam manter no exterior as divisas recebidas por suas vendas, o que diminuiria a entrada de dólares no Brasil. Na opinião de Vaz, a medida "no mínimo" iria gerar "incerteza sobre a direção do câmbio".

      Julio Sérgio Gomes de Almeida, do Iedi, critica também o "mix" de política econômica do governo, algo que os representantes do setor industrial e parte dos economistas brasileiros têm feito há algum tempo. "Agora realmente é difícil conter a queda do dólar. Mas poderíamos ter feito algo em 2003 e 2004, e não fizemos nada", sustenta ele.

      O economista do Iedi diz que o "sentido de nossa política econômica é antiindustrial", criticando o que ele chama de arranjo do câmbio e dos juros. Parte do problema brasileiro, argumenta ele, são as altas taxas de juros, que também contribuem para a valorização da moeda brasileira.

      Por enquanto, conclui Gomes de Almeida, não houve um processo de desindustrialização por conta da política equivocada. Mas, diz o Iedi, a insistência no erro pode "ir causando uma morte lenta" do setor.
    

      Valorização do real atinge recorde

      Nunca o real esteve tão valorizado. É como se os R$ 2,126 por dólar registrados na sexta-feira valessem mais do que o R$ 1,00 do início do Plano Real, em 1994.

      Dados pertencentes ao Ipeadata mostram que o índice de taxa de câmbio efetiva real marcou seu mais baixo patamar no mês passado. Para chegar ao índice, foi utilizado o IPA-OG (Índice de Preços do Atacado-Oferta Global) como deflator, além dos índices de preços no atacado de 16 dos mais importantes parceiros comerciais do país.

      Para o setor exportador, esse tipo de notícia não costuma ser animadora. Isso porque os produtos brasileiros, quando convertidos em dólares, estão custando mais caro do que nos últimos anos.

      Assim, se o cenário internacional deixar de ser tão favorável -como tem sido nos últimos meses-, o setor exportador pode ver a demanda por seus produtos encolher, perdendo terreno para bens de outros países.

      "Acho drástica a questão cambial. E a tendência é a de o dólar seguir em baixa, pois tem sobrado muita moeda no mercado", diz Roberto Segatto, presidente da Abracex (Associação Brasileira de Comércio Exterior).

      Alguns pontos ajudam a explicar o porquê de o real estar tão apreciado. Um deles são os elevados superávits da balança comercial brasileira, que acabam por aumentar a disponibilidade de dólares no mercado, em um momento em que ninguém está interessado em adquirir a moeda.

      Outro importante fator é a forte e persistente especulação a favor da moeda brasileira. Pelo menos desde setembro passado, grandes investidores estrangeiros têm realizado operações financeiras nas quais lucram mais se o real se mantiver apreciado. Isso tem acontecido devido às elevadíssimas taxas de juros brasileiras. Nenhum país do mundo tem juros reais mais altos que os do Brasil.

      "O câmbio está supervalorizado, mas ainda não se tornou tão nocivo a ponto de prejudicar os superávits comerciais", diz Jason Vieira, economista da GRC Visão.

      Desde o ano passado, o setor exportador tem intensificado suas reclamações em relação ao câmbio. Mas as medidas do Banco Central não conseguiram alterar a rota de depreciação do dólar.

      Além de comprar dólares praticamente todos os dias das instituições financeiras, o BC passou a realizar, no fim de 2005, leilões de contratos de "swap cambial reverso". As operações de "swap cambial reverso" têm o efeito de compra de dólares no mercado futuro, representando elevação na demanda pela moeda estrangeira.

      "O BC está é muito mais preocupado com a inflação. E o câmbio em níveis baixos representa uma fonte de pressão a menos sobre os índices de preços", diz o economista da GRC Visão, para explicar o motivo de achar que o BC não deve tomar nenhuma medida nova para tentar deter a apreciação do real.

      Segatto, da Abracex, diz que só consegue enxergar um ponto positivo decorrente do real valorizado. "Há empresas que estão aproveitando o momento para importar máquinas e equipamentos, o que é positivo."

(Folha de São Paulo)
 
Fonte: www.global21.com.br

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