Dólar baixo vai adiar saída de exportadores da crise, prevê setor
Desde o começo do ano, moeda norte-americana registra queda de 20%. Mesmo com prejuízo, empresas dizem exportar para não perder clientes.
No momento em que alguns setores da economia começam a reagir após prejuízos com a crise financeira internacional, empresas exportadoras afirmam que a queda acentuada do dólar será um empecilho para a recuperação do setor.
Na sexta (14), a moeda norte-americana fechou o dia valendo R$ 1,853. Desde janeiro, a desvalorização foi de 20,5%.
As empresas exportadoras são prejudicadas porque geralmente fecham contratos em dólar. Quando a moeda se desvaloriza frente ao real, as empresas têm menor rentabilidade.
Os indicadores financeiros mais recentes demonstram um processo de recuperação da economia brasileira, segundo avaliação da equipe econômica do governo.
Dados desta semana corroboram a avaliação. Na última segunda-feira (10), a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) anunciou que o comércio varejista da região metropolitana de São Paulo teve em junho o primeiro aumento de vendas depois de nove quedas consecutivas.
Na quinta-feira (13), dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) projetaram crescimento de 2,5% na produção da indústria paulista em julho na comparação com junho.
Dias antes, outra pesquisa da FGV havia mostrado que a confiança do consumidor na economia retomou o patamar registrado em setembro passado, quando começou a fase mais aguda da crise.
Na avaliação do gerente de pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Renato da Fonseca, mesmo com os sinais de melhora na economia, os exportadores projetam mais queda nas vendas - dados da balança comercial apontam que do começo do ano até o dia 9 de agosto, as exportações brasileiras apresentaram queda de 23,6% em relação ao valor exportado no mesmo período de 2008.
"Tem gente que fala que é o início do fim da crise ou o começo da recuperação. Tem variáveis mostrando uma melhora e tem variáveis ainda não refletindo essa melhora. O próprio empresário está mais otimista em relação ao mercado doméstico, mas ele está pessimista em relação ao mercado externo, segundo a nossa pesquisa. A maioria ainda espera que vai cair mais as exportações", afirma.
Segundo Fonseca, isso acontece porque, num momento em que é importante ser competitivo para vender para o exterior, o câmbio afeta a rentabilidade.
"Nesse momento de crise é mais importante ser competitivo porque você vai ter mais gente oferecendo e menos demandando. O cara que demanda vai começar a olhar o preço e vai escolher o mais barato. Durante a crise, a reclamação do câmbio é ainda maior", afirma Renato da Fonseca, da CNI.
Para o economista, a solução a médio e longo prazo é o governo aumentar investimentos em logística e atuar para a desoneração tributária.
"[A queda do dólar para os exportadores] é pior em um momento de saída da crise. Vai sair com todos os pontos negativos: câmbio, sistema tributário e gargalo na logística."
'Para não perder o cliente'
O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, afirmou que a situação faz com que a maioria das empresas exporte "só para não perder o cliente".
"Com essa cotação perde a competitividade. Alguns deixam de vender e outros, para não perder o cliente, exportam mesmo com prejuízos."
Castro avalia que a taxa de câmbio como está "trará problemas" no próximo ano para o comércio exterior, quando a previsão do restante da economia é de melhoria.
O setor de máquinas, segundo Mário Bernardinim, assessor da presidência da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), é um dos que mais perdeu neste ano em razão da queda da demanda, por conta da crise, e também do câmbio.
"Não há queda de margem de lucratividade que compense uma desvalorização de 20% [no dólar] em seis meses", afirmou Bernardini.
Para ele, é preciso que o Banco Central compre dólares "mais agressivamente" para tentar estabilizar a cotação da moeda norte-americana. "Assim, o governo sinaliza para a turma que está ganhando no câmbio por causa da especulação que o jogo pode inverter. (...) Sinaliza que o feitiço pode virar contra o feiticeiro."
Queda na receita
A empresa B Grob, fabricante de máquinas de São Bernardo do Campo (SP), é exemplo de empresa que vem perdendo com a queda do dólar, segundo o diretor administrativo-financeiro, Oscar Passos. Entre 50% e 80% da produção da empresa é destinada para a exportação.
Passos afirmou que, apenas neste ano, a empresa perdeu cerca de 5% da lucratividade por conta do câmbio. Isso ocorreu mesmo tendo adotado medidas financeiras para tornar a exportação mais segura, como fechar contrato com banco para estipular taxa de câmbio futura.
"Temos cálculo de custo por trás da oferta das máquinas. Na formação do preço, é considerada a variação do câmbio. A máquina agora fica mais cara do que há seis meses e isso tira a nossa competitividade."
Crédito-prêmio do IPI
Na quinta (13), o Supremo Tribunal Federal (STF) tomou uma decisão contrária ao setor exportador. Os ministros entenderam, por unanimidade, que o crédito-prêmio do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) foi extinto em 1990. As empresas pleiteavam o entendimento de que o benefício ainda era válido.
O mecanismo instituído pelo governo brasileiro em 1969 consistia na devolução parcial do custo dos tributos indiretos que se acumulavam no preço dos produtos manufaturados destinados à exportação.
Uma eventual decisão no sentido de estender a vigência do crédito-prêmio até os dias atuais poderia gerar, segundo a União, um rombo estimado entre R$ 70 bilhões e R$ 288 bilhões aos cofres públicos.
Na semana passada, o Congresso se antecipou ao Supremo e aprovou uma lei que fixou que o crédito-prêmio teve vigência até 31 de dezembro de 2002. O líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), no entanto, já sinalizou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve vetar a legislação.
Mariana Oliveira
Fonte: http://g1.globo.com








