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Indústria: O Cenário do Primeiro Semestre

Crescimento de 2,6% no semestre mostra que a situação industrial do País está bem aquém do dinamismo de outras economias emergentes.

 A interpretação dos resultados da indústria brasileira no primeiro semestre foi, de certa forma, enviesada pelos fenômenos atípicos de junho. Efeito da Copa do Mundo de Futebol, greve dos auditores da Receita Federal e a paralisação programada para manutenção de plataformas de petróleo se constituíram em fatores-chave para explicar a elevada queda na passagem de maio a junho (-1,7% na série dessazonalizada).

De qualquer forma, o fato da indústria ter crescido 2,6% no semestre mostra que a situação industrial do País está bem aquém do dinamismo de outras economias emergentes. Ademais, em paralelo, tal aumento foi acompanhado pelo declínio no pessoal ocupado assalariado na indústria (-0,5%).

Em parte, tal confluência de resultados traz peculiaridades que devem ser sublinhadas:

Primeiramente, um ponto que diz respeito não à magnitude da expansão em si, mas à sua composição. Apenas quatro segmentos industriais – extrativa mineral; material elétrico; computadores; e refino de petróleo e álcool – responderam por quase 70% do crescimento global. Ou seja, falta não apenas uma maior expansão da indústria no segundo semestre do ano, mas também uma significativa retomada do crescimento na maioria das atividades industriais.

A expansão da produção física da indústria com declínio de pessoal ocupado assalariado no semestre (frente ao mesmo período de 2005) reflete o declínio, em decorrência da apreciação cambial, de importantes segmentos intensivos em mão-de-obra, como têxtil, vestuário, calçados e artigos de couro.

Avaliando o desempenho industrial por outro ângulo, ou seja, segundo a intensidade tecnológica, a indústria de baixa tecnologia foi a que menos cresceu no acumulado do ano e no acumulado em 12 meses (1,1% e 0,4%, respectivamente). A consideração relevante é que esse segmento tem um papel de sumo relevo ao criar dinamismo na demanda doméstica. Tal aspecto tem contribuído para uma forte retração em 2006 da indústria em certas regiões ou estados (como a indústria gaúcha), na qual as referidas atividades têm um peso relevante (o Rio Grande do Sul registrou queda na produção e no número de pessoas ocupadas assalariadas de 3,9% e de 9,1%, respectivamente).

Assim o dinamismo que se verificava nos segmentos mais intensivos em tecnologia (usamos uma metodologia da OCDE) dá sinais claros de arrefecimento, principalmente no contraponto entre os meses de junho de 2006 e de 2005. Na faixa de alta tecnologia, mesmo com a expansão na produção dos equipamentos de informática, houve queda (-0,3%) devido à retração em equipamentos eletrônicos e de telecomunicações (inclusive componentes) ocasionada pelo declínio na produção de telefones celulares.

Embora se atribua à greve na Receita Federal parcela da culpa por essa retração, pois trata-se de uma atividade que depende do ingresso de componentes importados, o fato é que esse fenômeno pontual pode simplesmente estar tirando o foco do problema maior: a apreciação cambial. Parte da produção de uma grande empresa internacional no Amazonas destinada ao abastecimento do mercado estadunidense foi transferida para o México. Por ser o segmento eletrônico e de comunicações o mais expressivo da indústria amazonense, o estado sofreu o maior declínio entre as 14 regiões tomadas pelo IBGE no contraponto junho/2006 versus maio último (série livre de efeitos sazonais), além de ter percebido queda também na comparação entre meses de junho.

Dentre as quatro faixas de intensidade tecnológica da indústria de transformação (além dos segmentos de alta e de baixa intensidade, há o de média-alta e de média-baixa), o de média-alta sofreu a maior queda na comparação entre meses de junho de 2006 e de 2005, em decorrência das retrações nos segmentos de outros produtos químicos e de veículos automotores. Por outro lado, a indústria de média-baixa intensidade apresentou a única taxa positiva por essa base de comparação, em virtude principalmente de refino de petróleo e produção de álcool. São segmentos nos quais São Paulo possui uma produção importante, fazendo com que o estado de maior pujança industrial experimentasse declínio no mês, mas ainda com expansão no semestre.

Dos apontamentos acima, depreende-se um papel muito maior das variáveis-chave da economia: taxas de câmbio e de juros, além da própria capacidade do setor público em investir. Mais: à medida que o câmbio tem afetado segmentos intensivos em mão-de-obra, começa-se a impactar negativamente o dinamismo do mercado interno. Sem o anteparo de taxas de juros mais baixas, o impacto tende a ser maior. O papel da demanda doméstica na evolução dos segmentos de maior conteúdo tecnológico é reconhecido no Brasil e o declínio observado nessas atividades em junho preocupa, bem como é preocupante a perda de competitividade no plano internacional derivada da própria apreciação cambial. Nada disso favorece a expectativa de evolução da indústria no segundo semestre do ano. Já tarda uma atitude mais forte da política econômica quanto à taxa de juros e o nível do câmbio.


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Fonte: www.iedi.org.br

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