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Mão-de-obra e insumo importado garantem lucro na exportação - 03/04/2006

Variáveis microeconômicas explicam por que o câmbio afeta as empresas de forma diferente.

Tristeza de uns, alegria de outros. O velho ditado popular reflete os distintos impactos do dólar barato nos setores exportadores da economia brasileira. Enquanto fabricantes de remédios e celulares aproveitam a redução de custos e planejam exportar mais, empresas de roupas, calçadistas e autopeças fazem as contas do prejuízo.

Variáveis microeconômicas explicam por que o câmbio afeta as empresas de forma diferente. Primeiro, a quantidade de insumos importados na composição das mercadorias. Segundo, o peso da mão-de-obra versus o nível de utilização de tecnologia em cada setor. Terceiro, as vantagens tributárias. A atual legislação de PIS/Cofins favorece as empresas que agregam pouco valor aos produtos.

"Quem importa bastante e é intensivo em capital, e não em trabalho, consegue agüentar mais as conseqüências do câmbio valorizado", diz o economista-chefe da MCM Consultores, Celso Toledo.

Bráulio Borges, da LCA Consultores, reforça a tese de que empresas exportadoras que importam muito e são pouco intensivas em mão-de-obra convivem razoavelmente com o dólar barato. O câmbio valorizado reduz os preços dos insumos comprados no exterior. Quem emprega pouco também é menos afetado pelo dólar. As empresas exportadoras recebem a receita em dólares, mas pagam os trabalhadores em reais.

Exemplo típico são as companhias do segmento de eletroeletrônicos, principalmente celulares. O coeficiente de insumos importados nesse produto chega até a 90%. Segundo Borges, o Brasil é praticamente um "montador" de produtos eletroeletrônicos, fabricando pouca coisa aqui. A indústria farmacêutica também não tem problemas com o dólar barato, diz Borges, até porque exporta pouco.

Em 2005, o setor de equipamentos eletroeletrônicos aumentou em 104% a quantidade exportada, apesar da queda de 10% no preço e de 28,1% na rentabilidade das exportações. Mas os custos desse setor cresceram apenas 3,6%, segundo dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). O desempenho do setor de madeira e mobiliário foi diferente. A quantidade exportada caiu 5,2% no ano, apesar da alta de 6,7% nos preços. A rentabilidade das exportações desse setor caiu 17,8% e os custos subiram 8,3%.

Os setores que sentem menos os efeitos negativos do câmbio também são os que menos contribuem para o superávit no comércio exterior. O setor eletroeletrônico encerrou 2005 com saldo negativo de US$ 7,4 bilhões, depois de importar US$ 15,1 bilhões. Já no setor farmacêutico, o déficit ficou em US$ 1,5 bilhão, para o que contribuiu a baixa exportação do setor.

No outro extremo da produção, estão as empresas que compram poucos insumos do exterior e usam mão-de-obra intensiva, como calçadistas e móveis. Como importam pouco, não conseguem compensar parte da perda de rentabilidade nas exportações com uma queda nos custos de produção, afirma Thaís Marzola Zara, da Rosenberg & Associados.

Estes setores, ao contrário dos importadores líquidos, ajudam muito o saldo comercial. O segmento de madeira e mobiliário teve superávit de US$ 2,5 bilhões em 2005 e o de calçados contribuiu com US$ 1,8 bilhão, já descontadas as importações do segmento.

Segundo Thaís, nesse cenário é inevitável que as empresas procurem aumentar as importações, trocando fornecedores locais por estrangeiros. Companhias que decidiram comprar uma nova máquina para ampliar a capacidade de produção têm recorrido com mais freqüência à importação de bens de capital, avalia Thaís. Nos 12 meses terminados em janeiro, por exemplo, a produção doméstica de bens de capital aumentou apenas 3,6%, enquanto as compras externas cresceram 14,6%.


Fonte: www.valoronline.com.br/veconomico

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