Mercado sob a incerteza - 30/03/2006
Dólar e bolsa vivem dia de calma, mas analistas prevêem turbulências futuras devido a indefinições sobre política de Mantega.
Embora o mercado tenha vivido ontem (29/03) um dia que, nem de longe, lembrou a tensão do início da semana, isso não indica que as turbulências sejam coisa do passado. É consenso entre economistas que operam no mercado financeiro que os preços das ações, dos contratos cambiais e de títulos públicos serão outros, agora na gestão do novo ministro da Fazenda, Guido Mantega.
- Se antes discutíamos quando o dólar chegaria a R$ 2, agora já trabalhamos com uma taxa de câmbio entre R$ 2,20 e R$ 2,30. Se até então pensava-se que a Bovespa poderia chegar aos 43 mil pontos, agora já não é bem assim - ponderou o sócio-diretor da Tendências Consultoria, Roberto Padovani.
Indicação de que o governo já percebe essa mudança é o adiamento, pelo segundo dia consecutivo, dos leilões de títulos públicos. As duas operações eram de NTNs - títulos prefixados remunerados pela inflação. O primeiro, de venda, iria ocorrer hoje e o segundo, de troca, na sexta-feira. As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) serviram para acalmar os mercados. O dólar fechou em leve alta de 0,23%, cotado a R$ 2,214. Já a Bovespa subiu 2,21%, depois de ter despencado 2,9% na terça-feira. Diante de uma platéia de empresários, Lula afirmou que ''não há mágica na economia''.
Mas, se para Lula, Mantega foi uma resposta, para os investidores, é uma grande dúvida.
- Ele é interino ou será o ministro no caso de um segundo mandato? Se ficar, como será 2007, como ele controlará a área fiscal? Sua origem desenvolvimentista vai prevalecer em um segundo momento? Enxerga-se muito menos agora sobre o futuro e, por isso, paga-se um adicional por isso - diz Padovani.
Um economista que gerencia ativos de emergentes de um grande banco estrangeiro disse ontem ao JB que já havia zerado suas posições em Brasil.
- México e, agora, o Brasil passam por incertezas devido ao período eleitoral. A instabilidade provocada pela perspectiva de que os EUA elevem mais sua taxa de juros não afeta todo o mercado. Mas comprar Brasil é atualmente perigoso - disse.
No entanto, ainda não é possível mensurar o volume de saída de estrangeiros que atuam no mercado brasileiro devido às incertezas dos últimos dias. Ontem, o risco país voltou à casa dos 230 pontos e, na hora do fechamento do mercado brasileiro, caminhava nos 233 pontos. Para os analistas, as turbulências provocadas pela mudança e as indefinições sobre as decisões de Mantega nos próximos meses darão o tom.
- Não há boa notícia por vir. Sem isso, o risco não cairá mais ou a bolsa subirá muito mais. Vai ser bom se andar de lado (se ficar mais ou menos no mesmo patamar) - disse o economista-chefe do Itaú, Tomas Málaga, que vai além. - (Antonio) Palocci tinha como prioridade resolver questões fundamentais, como a solução para as agências regulatórias e os gargalos de energia e de logística. Mudanças que poderiam levar o país a um crescimento mais elevado. Essas não são bandeiras do Mantega. O país não pode esperar mais. Se até as eleições o governo petista não mostrar que levará essas questões básicas para o segundo mandato, há risco de que o prêmio de risco volte a subir e haja nova desvalorização no câmbio.
Fonte: www.jbonline.terra.com.br








