Moveleiros projetam demissões com a crise
O recuo de 34,3% na receita com exportações de móveis gaúchos em janeiro inseriu no cenário de curto prazo uma ameaça: demissões em empresas que têm maior peso do comércio externo em seu faturamento.
A previsão foi feita nesta quinta-feira por representantes da Associação das Indústrias de Móveis do Estado (Movergs) e do Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindimóveis), maior polo do segmento em território gaúcho.
A presidente da Movergs, Maristela Longhi, afirma que a reversão do atual quadro é difícil no primeiro semestre e defende medidas como maior rigor na gestão dos negócios, leia-se controle despesas e redução em gastos como de energia, e deslocamento de parte maior da produção para o mercado interno.
A dirigente previne que a autorização do governo federal para compensação dos créditos com exportações na conta do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) daria oxigênio para o fluxo de caixa das empresas.
A entidade já se reuniu com a direção da Receita Federal para solicitar a operação. O faturamento com o mercado externo representa 14% da receita anual do setor no Estado, que ficou em quase R$ 4 bilhões em 2008. As exportações somaram US$ 289 milhões, ou R$ 661 milhões. Maristela avalia que essa proporção, considerada pequena, impede maior impacto da retração externa no setor local. "Mas para o exportador o momento é preocupante e exige cautela", descreveu a dirigente.
Ela citou que a queda das vendas, verificada desde dezembro, já imprimiu ritmo diferente nas plantas. "Em janeiro, as indústrias fizeram gestão de férias, parando um dia da semana. Se o mercado não reagir, automaticamente essas empresas terão de revisar as suas metas, e demissões não estão descartadas". Com receita menor em vendas, as empresas gaúchas, segundo Maristela, enfrentam uma dificuldade extra para honrar contratos de compra e venda, que foram feitos quando o dólar estava em baixa, mas que devem ser saldados com a cotação maior. "O aumento da competitividade dos nossos produtos, graças à valorização, não está sendo explorado pois não há encomendas", lamenta a presidente da Movergs.
Essa situação pode explicar por que a queda nas vendas gaúchas, que somaram US$ 11,9 milhões em janeiro ante os US$ 18,3 milhões do mesmo mês de 2008, foi maior que a do Brasil no setor, que ficou em 27,4%. Até outubro de 2008, o crescimento dos negócios externos dos moveleiros locais sempre foi superior à média nacional. Outro detalhe: desta vez não foram só as encomendas para os Estados Unidos e países europeus que perderam fôlego. Compradores latino-americanos, que vinham ocupando cada vez mais espaço entre os principais destinos, lideraram as baixas. A queda, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), foi de 33,6% nas exportações para a Argentina, segundo maior comprador em janeiro e que liderou o mercado em 2008.
Presidente da Movelsul 2010, uma das maiores feiras do setor na América Latina que ocorre em Bento Gonçalves e integrante do Sindimóveis Marcelo Haefliger ressaltou que a alta do dólar acrescentou 40% de competitividade para os produtos, mas que o efeito é quase nulo ante a demanda desaquecida. Haefliger reforçou que a dificuldade para saldar contratos de proteção cambial provoca maior endividamento de empresários.
A partir deste mês até março, o dirigente espera que sejam adotadas férias coletivas e, na sequência, caso se mantenha o quadro, redução de jornada e até demissões. Haefliger lembra que as empresas não podem abandonar o mercado externo, pois o custo para voltar depois será bem maior. "É hora de rever investimentos e projetos e manter a indústria funcionando", aconselha.
Fonte: /jcrs.uol.com.br








