Novo grau de investimento reforça valorização do real
Decisão da Moody's, Agência de Classificação de Risco, simboliza percepção geral de que se deve investir no Brasil. Para Mendonça de Barros, Banco Central deveria atrelar real a uma cesta de moedas para produção não perder competitividade externa.
Ao elevar tardiamente o Brasil a grau de investimento, a agência Moody's dá apenas significado simbólico à percepção generalizada de que vale a pena colocar dinheiro no país.
Ufanismo à parte, resta uma questão de fundo que tende a se complicar: como lidar com um cenário de valorização veloz do real, não só contra o dólar, mas contra praticamente todas as moedas mundiais?
"Não há nada o que se possa ou deva fazer para impedir a queda do dólar, um movimento mundial, irreversível", diz Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações .
"Mas creio ser possível impedir que o real ganhe valor com relação a uma cesta de moedas de países que são nossos grandes competidores comerciais."
Mendonça de Barros faz referência à valorização generalizada do real desde janeiro. Alguns exemplos: 24% contra o won sul-coreano e 33% contra o rublo, a moeda da Rússia.
Segundo ele, essa valorização resulta de um dilema inédito. "Investidores estão comprando tudo denominado em reais: terra, árvore, porco, imóvel. Quando levam o ativo, estão levando o próprio real. O impacto sobre o câmbio é grande. Está errado tanto o governo, que acha que não podemos fazer nada, quanto aqueles que acham que há muito o que fazer para segurar a moeda."
A solução proposta por Mendonça de Barros centra-se no Banco Central, que, formal ou informalmente, deveria manter a cotação do real dentro de uma cesta de moedas.
Essa cesta deveria incluir principalmente os países cujas moedas têm suas cotações controladas pelo governo.
A mesma preocupação do ex-ministro dominou o Fórum de Economia da FGV, ocorrido na última segunda-feira (21/9) em São Paulo e que contou com as participações do empresário Paulo Cunha e dos economistas Samuel Pessoa, José Luís Oreiro e Yoshiaki Nakano, entre outros.
Entre as soluções mais radicais propostas para impedir a valorização excessiva do real, estavam a tributação à entrada de capitais, a criação de um fundo de estabilização cambial e a redução mais radical da Selic.
Economista menos heterodoxo do evento, Samuel Pessoa argumentou que, se quiser realmente conter a valorização do real, o governo deveria cortar gastos e usar a sobra para acumular reservas. "Caso contrário, criará inflação."
Nakano também propõe o rigor fiscal como medida essencial para recolocar a cotação do real num patamar competitivo.
Houve muita crítica à política monetária do BC. Segundo quase todos os economistas presentes, mesmo que a Selic esteja em sua mínima histórica, ela continua alta em comparação com o resto do mundo.
Com isso, a rentabilidade da renda fixa ainda estaria alta no Brasil, agravando ainda mais uma tendência estrutural de atração de capitais.
Para Mendonça de Barros, esse fator é irrelevante diante dos outros. "Não é só uma questão de renda fixa. O maior volume de recursos que o Brasil atrai é para a compra de ativos, dentro de um movimento global de reequilíbrio de carteiras contra o dólar."
O ex-ministro dá o exemplo da oferta pública de ações planejada pelo Santander, que pode levantar pelo menos US$ 3 bilhões e criar uma das maiores instituições financeiras negociadas em Bolsa na principal economia da América Latina. "Esse dinheiro virá majoritariamente de fora. É gente querendo comprar não só Santander mas, também, o real."
Fonte: www.global21.com.br (24/9/2009)








