País deve agregar valor ao produto exportado, aponta Unctad - 25/5/2006
Aumento das exportações e maior participação no mercado internacional não são, por si só, indicadores de desenvolvimento econômico e industrial.
Para atingir um grau relevante de inserção internacional, o Brasil e os demais países da América Latina precisam ganhar espaço nas vendas de produtos com alto valor agregado. A avaliação é do economista Jörg Mayer, da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad ) e foi feita ontem (24/5) em seminário sobre política industrial organizado pela Agência Brasileira para o Desenvolvimento Industrial (ABDI).
De 1990 até 2003, o Brasil manteve a participação das exportações de manufaturados em 0,8% de tudo o que é exportado no mundo. Ao mesmo tempo, perdeu participação nas vendas externas de produtos com maior valor adicionado - passou de 2,2% para 0,9%.
Movimento semelhante ocorreu na América Latina e Caribe. A região elevou sua participação no mercado internacional de itens manufaturados de 2,4% para 4,1%. No entanto, a parcela de produtos com maior valor agregado cedeu de 5,6% para 4,4%. Segundo Mayer, isso ocorre porque o Brasil, assim como os demais países latino-americanos, desde 1970 não tem mostrado melhora significativa sua pauta de produção e consequentemente, de exportação.
Pelos dados que o economista apresentou, os produtos que necessitam de um uso intenso de mão-de-obra e têm menor valor agregado representavam, no início da década de 70, 30% da produção de manufaturados do Brasil. Hoje, eles estão na casa dos 20%. Já os produtos intensivos em tecnologia representam 40% do total - uma parcela tímida, que avançou pouco, pois em 1970 era 20% da produção de manufaturados.
Na Coréia que, segundo o economista da Unctad, deve servir de exemplo para a América Latina, a participação de produtos de alta tecnologia cresceu muito e hoje já está próxima dos 60% da produção total de manufaturados. "Os países latino-americanos precisam de uma mudança estrutural em seus setores produtivos como o que ocorreu na Ásia", diz Meyer.
Para isso, os países devem atrair investimento direto estrangeiro e aumentar a inserção de seus produtos no mercado global. O Estado, na avaliação de Meyer, também tem um papel importante. Ele deve encontrar maneiras criativas de incentivar a produção de novos bens e estimular a criação de novas e melhores formas de produção.
Defender as empresas domésticas é uma saída viável. É preciso que o governo tenha uma política de proteção de alguns setores industriais, que deve ser modular e flexível. Em um primeiro momento, o foco deve estar nas áreas em que o país já domina a produção, mas precisa ganhar mercado.
Para Meyer, redução de tarifas, subsídios e financiamentos mais baratos são medidas que o governo pode adotar. Além disso, é preciso proteger a produção nacional da acirrada competição com produtos importados. "É claro que isso fica cada vez mais difícil, porque os países precisam obedecer às regras da Organização Mundial de Comércio (OMC). Por isso é que digo que os governos precisam ser criativos e achar meios de incentivar a produção local".
O economista sustenta que a estratégia de política industrial em uma economia aberta deve ser baseada na substituição de importações por meio de proteção da indústria local e da promoção de exportações por meio de subsídios. Mas isso precisa ser feito com tempo determinado. "As empresas precisam mostrar resultados. O governo não pode dar suporte infinito. Aos poucos, a ajuda do Estado deve ser reduzida até zerar."
O diretor do escritório da Comissão Econômica para América Latina (Cepal) no Brasil, Renato Baumann, acrescentou que o governo precisa agir também de forma indireta para estimular a indústria. "Hoje, a política cambial é um grande empecilho para uma maior inserção do país no cenário internacional".
Para ele, a política cambial brasileira é compatível com a macroeconômica, mas incompatível com a de comércio exterior. Baumann salientou que as pequenas e médias empresas também precisam exportar e que a sociedade civil, por meio de entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e federações da indústria, deve se manifestar de forma mais ativa em acordos multilaterais e não apenas nos bilaterais.
(Valor Econômico)
Fonte: www.global21.com.br








