‘Classe C adora verniz no móvel’
Pouca gente entende tão bem dos gostos e hábitos da classe C brasileira quanto o empresário Michael Klein, 57 anos.
Ele aprendeu o que sabe nas Casas Bahia, empresa onde trabalha desde os 18 anos e que comanda há três. No ano passado, as lojas de Michael faturaram 13 bilhões de reais, mais do que todos os concorrentes juntos. À frente da primeira rede de varejo no Brasil a mirar sobretudo a classe C, Michael deu a VEJA a seguinte entrevista, publicada na edição desta semana da revista.
Veja – A nova classe C é muito diferente daquela que freqüentava as lojas cinqüenta anos atrás?
Klein – Sem
dúvida. Uma diferença fundamental diz respeito à primeira pergunta
feita pelo cliente ao entrar na loja. No passado, ela era sempre a
mesma: "Moço, o que vocês têm de mais barato aí?". O preço era o que,
de longe, mais definia a compra, ainda que o produto em questão fosse
de baixa qualidade. Hoje, as pessoas não só ambicionam comprar uma TV
maior ou uma geladeira nova como querem uma boa marca – e já conhecem
todas. Isso tem evidente relação com a expansão do crédito, que lhes
permite gastar mais, mas também se deve a uma mudança fundamental na
classe C: ela está muito mais informada e instruída. Na década de 60,
havia 40% de analfabetos no Brasil. O número caiu para 10%. Essas
pessoas, naturalmente, se tornaram mais exigentes. Não é mais aquela
classe C a quem podíamos oferecer o produto mais ordinário que ela
comprava.
Veja – Que tipo de artigo costumava atrair a classe C e hoje deixou de fazer sucesso?
Klein – Além
de caçar pechinchas, outro padrão do passado era optar pelo produto
maior e mais vistoso. As pessoas levavam para casa caixas de som
gigantescas achando que tamanho conferia status e significava
qualidade, quando era justamente o contrário. De um colchão, elas
queriam saber apenas da espessura: era a filosofia do quanto mais alto
melhor. Não se importavam se ele era ortopédico ou se tinha boa espuma.
Hoje, fogem desses produtos e se pautam por critérios bem mais
objetivos na hora de tomar uma decisão. Surpreende o grau de
sofisticação das variáveis que elas pesam no momento da compra. A
questão ambiental, por exemplo, começou a preocupar a classe C no
Brasil. É comum que perguntem: "Vem cá, que tipo de gás essa geladeira
libera?". A lição que se extrai disso é simples – e só quem a entende
vai conseguir vender para gente de baixa renda: esses brasileiros já
almejam o melhor.
Veja – O que jamais muda no padrão de consumo das faixas de renda mais baixas?
Klein – A
atração por móveis de verniz sobreviveu intacta às décadas. Bote brilho
num armário e ele venderá como água. Ao pesquisar as razões disso,
cheguei a uma conclusão interessante: além de "embelezar", essas
pessoas atribuem ao verniz um efeito de limpeza, algo que prezam acima
de tudo. Também amam portas espelhadas. Passamos a vender muito mais
desde que tomamos a decisão de trocar enfeites por espelhos nos
armários. Eles fazem tanto sucesso porque conferem amplitude às casas
populares, nas quais os cômodos são cada vez mais espremidos. Espelhos
e móveis envernizados também dão certa sensação de status, tanto quanto
a cozinha planejada. Ela lembra a da classe A. O que muda é o material.








