90% do comércio mundial enfrenta novas barreiras
A guerra entre EUA e China no comércio é apenas a ponta de um iceberg que começa a ficar mais visível.
Ontem, dois relatórios separados
mostraram que o surgimento de barreiras ao comércio ameaçam adiar a
recuperação das economias e ainda distorcer mercados por anos. Hoje,
90% dos bens comercializados no mundo já sofrem algum tipo de nova
barreira e entidades internacionais pedem que, com a recuperação das
economias, as medidas protecionistas também desapareçam. Para a
Organização Mundial do Comércio (OMC), as barreiras são areia na
engrenagem do comércio mundial.
Segundo a Global Trade Alert,
entidade formada por especialistas do Banco Mundial e do Reino Unido,
95 barreiras foram adotadas entre julho e setembro no mundo. Outras 130
medidas estão em estudo e ainda podem ser adotadas, incluindo elevação
de tarifas, aumento de subsídios à exportação e até barreiras a
imigrantes. Em média, 60 novas medidas são adotadas a cada três meses.
Mais de 90% dos bens comercializados já foram afetados por alguma
medida protecionista nos últimos doze meses.
A China é a mais
atingida: 55 países aplicaram medidas contra os produtos chineses.
Contra os bens americanos foram 49. Os setores mais atingidos são
automóveis, agricultura, máquinas e alimentos.
Entre os países
que mais adotaram medidas contra o fluxo de produtos, a Argentina é
citada com dez novas barreiras desde abril, algumas contra produtos
brasileiros. A China adotou 11, e a Ãndia, 15. Os EUA somaram 16
medidas restritivas.
No Brasil, foram cinco medidas desde
abril, incluindo barreiras contra a fibra sintética da China, apoio
fiscal com a retirada do Imposto Sobre Produto Industrializado ( IPI)
na importação de bens de produção, aumento de tarifas para geradores e
medidas de antidumping contra Ãndia e EUA. O Brasil também adotou
período dois programas de estímulo à economia, um deles com US$ 4
bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Já
a OMC fez uma avaliação menos sombria. Reconheceu que países estão
resistindo à adoção de uma guerra comercial, mas escorregam em suas
promessas de não adotar medidas protecionistas. Para a OMC, foram
apenas 55 novas medidas protecionistas nos últimos três meses.
Os
documentos foram preparados às vésperas da nova reunião do G-20, nos
EUA, e servem como alerta aos governos sobre os riscos do
protecionismo. Para a OMC, o protecionismo de alta intensidade
conseguiu ser evitado. Mas o perigo é de um acúmulo de areia nas
engrenagens do comércio internacional, que poderia agravar a contração
do comércio e dos investimentos mundiais e afetar a confiança em uma
recuperação rápida e sustentável da atividade econômica global.
A
previsão das OMC é de uma contração de 10% no comércio mundial, ainda
que junho tenha registrado a primeira alta - de 2,5% - em um ano. Já a
previsão é de que os investimentos sofram redução de até 40% em 2009. A
projeção é de que o fluxo caia de US$ 1,7 trilhão no ano passado para
US$ 1,2 trilhão. Nos países ricos, a taxa cairá de US$ 1 trilhão para
apenas US$ 500 bilhões.
Apesar da queda, a OMC confirmou que as
medidas protecionistas continuaram a ser aplicadas desde abril. Isso
inclui subsídios e pacotes que continuaram a distorcer os mercados. Só
o número de salvaguardas no primeiro semestre chegou a 16, contra
apenas dois há um ano.
No G-20, onze países adotaram medidas de
restrição aos investimentos. As de apoio às empresas nacionais somaram
US$ 3 trilhões. Desde o agravamento da crise, governos criaram
subsídios, distorções e barreiras, alegando que a situação única da
crise exigiria esse apoio. Agora, organismos internacionais pedem que,
com o fim da recessão, os governos pensem sobre como retirar o
protecionismo.
Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex/O Estado de São Paulo








