A bonança acabou
As economias emergentes também vão perder pique, mas menos que EUA e Europa, destacando-se as poucas com grande mercado interno, pequeno ou nenhum déficit em contas correntes e baixa dependência do comércio exterior.
O país está parando, assim como o trânsito
paulistano, termômetro eficiente sobre a temperatura da economia. No
tempo real, tudo vai bem para os negócios. O nível de atividade está
dado até o Natal.
No tempo futuro do planejamento empresarial,
cresce a premissa de que em 2009 começará uma nova economia, com vendas
menos febris, o crédito menor e mais caro, o câmbio depreciado sem a
contrapartida de maiores exportações, o emprego estagnado e tendendo a
encolher na virada do semestre. Tempos ruins, a não ser para o trânsito.
No
novo quadro, pautado pelo aperto, seria teimosia tentar bombar o
crédito, como faz o Banco Central — pressionado por empresários e o
governo — abrindo a válvula dos depósitos compulsórios tomados à banca.
A dieta espartana da “nova economia? chegou para todos.
O senso
comum é que a débâcle financeira global bateu na economia real nos EUA
e Europa, que vão enfrentar recessões severas por um tempo maior que o
projetado pelo último cenário do FMI. Em público se divulga, por
exemplo, que a economia americana já volta a ficar de pé no último
trimestre de 2009. No reservado, os estrategistas de grandes bancos e
multinacionais especulam que o PIB dos EUA vai ficar dois a três anos
girando em torno do zero, estagnado, e sem a propulsão compensatória da
economia da zona do euro.
As economias emergentes também vão
perder pique, mas menos que EUA e Europa, destacando-se as poucas com
grande mercado interno, pequeno ou nenhum déficit em contas correntes e
baixa dependência do comércio exterior. Tal avaliação veste sob medida
o Brasil, mas se aplica também à China, onde a participação das
exportações para o dinamismo econômico parece superestimado, e o
crescimento movido pelo consumo doméstico ainda não foi testado de modo
mais intenso.
Tais cenários vêm de contato direto com grandes
bancos e empresas brasileiras, assim como da percepção do encontro
sobre estratégia, na última sexta-feira, promovido em São Paulo pelo
Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef). A visão de 2009
entre trinta empresas líderes indica a perda de espaço dos novos
investimentos.
Nesta amostragem, 52% admitiram estar revendo
investimentos, percentagem semelhante à obtida por pesquisa da revista
Exame numa base mais ampla. Se a economia real diminui no mundo,
decorrência da destruição do estoque de riqueza financeira que vinha
bancando a prosperidade nos últimos anos, ampliá-la se torna arriscado
— ao menos enquanto durar o ajuste até uma nova situação de equilíbrio.
Qual é a trincheira
Já
será bem-sucedida a empresa, e país, que fizer essa travessia com
perdas mínimas da atividade corrente. Esta é a trincheira dos negócios
privados, equivalendo no planejamento público a projetos de
infra-estrutura realmente prioritários, como aumentar a geração de
energia, já crítica para o consumo atual. As empresas sinalizam que vão
adaptar-se ao cenário menos promissor. O governo reluta.
Uma
coisa é o BC suprir com reservas de divisas o financiamento às
exportações reduzido pela escassez do crédito. Isso é capital de giro
vital para um setor com demanda real. Outra é sustentar o crédito ao
consumo. Ele só não pode colapsar. Adequá-lo à demanda potencialmente
cadente é medida de prudência até para o candidato a devedor. Em
situação de crise se preserva o essencial.
Pessimismo moderado
Não
há surpresa. A prudência não repercute excesso de pessimismo, irmã do
otimismo embriagado que dominou a economia mundial, sem excluir o país,
coincidindo com o início do governo Lula em 2003. Resulta da
compreensão de que terminou a era de dinheiro barato e farto, fonte de
projetos agora provavelmente inviabilizados pela conjugação de custo
futuro maior e menor expectativa de demanda, o que recomenda cautela na
concessão de créditos.
A
rigor, frente à situação de horror da economia na Europa e EUA, o pior
cenário projetado para o Brasil em 2009 é brilhante. O PIB, segundo 65%
da amostragem ouvida pelo IBEF, vai girar em torno de 3% a 3,5%. O
patamar de 2% a 2,5%, como previsto por economistas próximos ao mercado
financeiro, está no planejamento de apenas um terço das empresas. A
política econômica tem gás para defender um desempenho mais robusto, se
não dispersar as reservas e o dinheiro dos bancos públicos em ações de
baixa eficácia para a economia. Às conveniências políticas do governo é
que não se deve subordinar.
Futuro condena BM&F
Mudanças
no cenário meio-pau para a economia no Brasil em 2009 e sem beira na
Europa e EUA dependem de decisões desconhecidas. Nos EUA, um novo
presidente será eleito em 4 de novembro. Os períodos imediatos à posse
de governos favorecem medidas de impacto, embora seja difícil cogitar a
retomada da economia americana até 2010. Da China, então, tudo é mais
imprevisível, mesmo o tamanho do PIB. Da economia chinesa só se sabe o
que o governo permite revelar, com a ressalva de que nenhum órgão
internacional audita as suas contas.
Com tantas incertezas, nada
justifica manter um mercado futuro de dólar como o da BM&F se nem
se tem certeza do presente. O mercado com dólar à vista já bastaria.
Simplificar às vezes é ousadia.
Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex/Correio Braziliense








