A jogada mais ousada de Abilio
Com a compra do Ponto Frio, o dono do grupo Pão de Açúcar consegue retomar a liderança do varejo brasileiro, distanciar-se do Wal-Mart, seu mais perigoso concorrente, e ameaçar a Casas Bahia.
Poucos homens de negócios no Brasil se orgulham tanto da própria trajetória quanto o empresário Abilio dos Santos Diniz. Bilionário, poderoso e atlético, o dono da rede de supermercados Pão de Açúcar viveu momentos de agonia e glória na condução de seu grupo, que chega até aqui como um dos maiores conglomerados empresariais do país. Durante décadas, Abilio ajudou a erguer o Pão de Açúcar do zero. Na década de 90, tirou a empresa da bancarrota. Nos últimos anos, conduziu seus negócios num ambiente de feroz competição com os mais poderosos varejistas do mundo. São fatos fortes o bastante para compor sua biografia empresarial. Mas, aos 72 anos, Abilio Diniz decidiu iniciar mais um capítulo com uma tacada que pode se provar a mais ousada de sua carreira. No começo da manhã de 8 de junho, uma segunda-feira, o grupo Pão de Açúcar anunciou a aquisição do Ponto Frio, segunda maior rede de varejo de eletroeletrônicos do país, com faturamento de 4,8 bilhões de reais. O significado da compra do Ponto Frio vai além da estratégia do Pão de Açúcar de se fortalecer no varejo de eletroeletrônicos, setor em que a Casas Bahia reina absoluta. Abilio pagou 824,5 milhões de reais para ter de volta algo que lhe é muito caro: a liderança do varejo brasileiro, perdida para os franceses do Carrefour.
Agora, sua disputa diária ganha novos contornos. Carrefour e Wal-Mart recebem a companhia da Casas Bahia na lista de rivais a bater de Abilio. A amigos ele confidenciou que pretende disputar a liderança do varejo de eletroeletrônicos - embora o faturamento somado das operações do grupo nesse mercado e do Ponto Frio seja de 7 bilhões de reais - ou metade das vendas anuais da rede controlada pela família Klein. "Todo mundo sabe que o Abilio vive de desafios", afirma um executivo próximo ao empresário. "Mas mesmo quem já conhece o estilo dele sabe que a compra do Ponto Frio é o maior de todos."
O anúncio do negócio foi o ápice de um processo que durou mais de um ano, envolveu assessores espalhados por quatro países e se encerrou às 4 horas da manhã de 8 de junho, quando a última assinatura do contrato de venda foi recebida pelos advogados e banqueiros que assessoravam Abilio. O ponto de partida foi a decisão tomada por Lily Safra, viúva do banqueiro Edmond Safra e controladora do Ponto Frio, de colocar a rede à venda - depois de outras cinco tentativas malsucedidas. As primeiras conversas começaram no primeiro semestre do ano passado, quando alguns potenciais compradores foram sondados pelos banqueiros do Goldman Sachs, representantes de Lily. Entre os candidatos à aquisição estavam alguns dos principais varejistas do país - Lojas Americanas, Carrefour, Magazine Luiza e Pão de Açúcar -, além de uma surpresa, o Grupo Silvio Santos. Abilio tentara comprar o Ponto Frio em outras ocasiões, mas esbarrara em indecisões de última hora dos acionistas. Para evitar novas frustrações, em janeiro deste ano, ele resolveu fazer uma visita a Lily Safra em Nova York e certificar-se de que, desta vez, a venda seria irreversível. Saiu de lá convencido. O mesmo movimento teria sido feito por uma das mais fortes candidatas ao negócio, a empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza, rede que há poucos anos deixou o interior de São Paulo para se transformar numa das grandes empresas de varejo do país. Simpática e extrovertida, Luiza Helena teria presenteado a aristocrática e reservada Lily com uma caixa de doces caseiros. Lilly permaneceria impassível. Em março, o Ponto Frio divulgou um fato relevante, colocava-se publicamente à venda e esperava por novas propostas.
A opção final de Lily pelo Pão de Açúcar deveu-se em grande parte à sólida situação financeira apresentada pelos negócios de Abilio. Depois de passar por uma reestruturação no ano passado, o grupo encerrou 2008 com 1,8 bilhão de reais em caixa - o suficiente para satisfazer à demanda dos controladores do Ponto Frio, que exigiam pagamento de 1,1 bilhão de reais em dinheiro. No entanto, para evitar um elevado endividamento num período de turbulência internacional, o Pão de Açúcar partiu para uma negociação dura em relação ao valor e insistiu num sistema de troca de ações. O resultado foi um modelo híbrido, desenhado pelo escritório de fusões e aquisições Estáter, que prevê o pagamento em duas parcelas. A primeira, de 373,4 milhões de reais, será paga à vista. Os recursos sairão do caixa do grupo. A segunda, no valor de 451,1 milhões, será feita sob a forma de ações do Pão de Açúcar, que fará uma emissão em julho. Sem ter o mesmo cacife financeiro, o Magazine Luiza desistiu do negócio - assim como os demais pretendentes. "Pesou a favor do Pão de Açúcar o fato de o grupo contar com papéis de alta liquidez em bolsa", disse a EXAME Cláudio Galeazzi, presidente do Pão de Açúcar e responsável pela recente reestruturação do grupo.
O empenho de Abilio é uma mostra da importância que ele dava à conclusão do negócio. Com a aquisição, o grupo Pão de Açúcar volta à liderança no setor de varejo, perdida para o Carrefour em 2007. Além dos inegáveis ganhos com sinergias, estimados em até 500 milhões de reais pelos executivos do grupo, a compra do Ponto Frio deverá ajudar a solucionar dois problemas. O primeiro é a expansão do Pão de Açúcar, uma empresa muito concentrada em São Paulo, para outros estados. A maior parte das 455 lojas do Ponto Frio localiza-se em praças onde o grupo tem pouca ou nenhuma penetração (casos de Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo). Além disso, o faturamento de cerca de 5 bilhões de reais do Ponto Frio permite finalmente à rede uma posição sólida no setor de eletroeletrônicos, que apresenta margens de lucro maiores que as obtidas pelos supermercados. O Pão de Açúcar fez tentativas solo de atuar nesse mercado com a marca Eletro, adquirida na década de 70 e transformada anos atrás em Extra Eletro. Com apenas 47 lojas, porém, a Extra Eletro tem atuação marginal no segmento. "Não tínhamos escala para brigar com as grandes redes", afirma um executivo do Pão de Açúcar. Segundo uma fonte ligada ao Casino, o sócio francês do grupo, as lojas do Extra Eletro serão incorporadas nos próximos meses ao Ponto Frio e administradas separadamente dos supermercados.
Mais do que passar à frente do Carrefour, a jogada de Abilio Diniz colocou o Pão de Açúcar numa posição confortabilíssima em relação àquela que é considerada a maior ameaça à liderança do grupo no longo prazo: o americano Wal-Mart, maior rede de supermercados do mundo. Embora esteja na terceira posição no ranking do varejo nacional, com faturamento de 17 bilhões de reais, o Wal-Mart tem crescido à média de 5% ao ano no Brasil. Em 2009, a empresa deve investir 1,8 bilhão de reais na abertura de cerca de 90 lojas, a maior parte delas na Região Nordeste - mercado em que o Pão de Açúcar opera no vermelho. "O Wal-Mart tem apresentado uma estratégia sólida de crescimento no Brasil", diz um executivo do Pão de Açúcar. "E sabemos que a matriz americana não vai poupar esforços para fazer com que a rede chegue à liderança do mercado."
Como em toda grande aquisição, os benefícios decorrentes da compra do Ponto Frio vêm acompanhados de desafios - alguns deles de dimensões consideráveis. Apesar de garantir maior massa muscular à empresa de Abilio Diniz, o Ponto Frio sofre de problemas crônicos, como a baixa penetração na classe C, cujos consumidores formam o pilar que sustenta a estratégia da Casas Bahia e do Magazine Luiza. Desde que assumiu o posto de presidente do Ponto Frio, há dois anos, o executivo Manoel Amorim tentava mudar esse cenário, mas esbarrava em entraves que iam da localização das lojas à falta de investimentos. Em 2008, um ano espetacular, as vendas da rede não acompanharam a média do setor. "Nos últimos anos, o Ponto Frio foi tomado por uma acirrada disputa entre sócios e por um grande desinteresse de Lily Safra pelo negócio", diz Claudio Felisoni, consultor da Fundação Instituto de Administração, da Universidade de São Paulo.
Abilio Diniz é conhecido por seu temperamento por vezes mercurial. Ganhar a disputa pelo Ponto Frio era, sim, uma questão de honra. Mas era sobretudo a saída estratégica que ele enxergava para o crescimento de seus negócios. A aquisição, no entanto, não está livre de alguns riscos. O Ponto Frio, assim como a maior parte de seus concorrentes, tem apresentado um retorno sobre o capital investido inferior a 10%, abaixo do custo de capital da empresa. "Esse descompasso acaba diminuindo o valor para o acionista", afirma o analista de um grande banco de investimento. "O Pão de Açúcar agora precisa encontrar uma maneira de fazer com que o Ponto Frio trabalhe com margens maiores." Para o incansável Abilio Diniz, que aos 72 anos será papai pela sexta vez, esse novo capítulo de sua biografia está apenas começando.
Por Carolina Meyer e Márcio Juliboni








