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A vocação do Sul para carimbar o passaporte

"No estudo sobre a internacionalização das empresas de países emergentes, elaborado pela Boston Consulting Group, chama a atenção a procedência das empresas brasileiras listadas. Entre as 12 companhias que receberam o título de 'desafiantes globais', 5 - Embraco, Gerdau, Perdigão, Sadia e Weg- têm em comum a origem no Sul do Brasil.


Na região, que responde por um quarto das exportações brasileiras, proliferam várias outras empresas que não se contentam em exportar seus produtos e estão fincando suas bandeiras em solo estrangeiro.

Embora em diferentes níveis de intensidade, a internacionalização parece integrar o DNA das empresas sulinas. Parte dessa vocação para ousar lá fora pode ser explicada pelos movimentos migratórios que caracterizaram a colonização no Sul. Eles ajudariam a minimizar o que a literatura chama de distância psicológica, ou seja, fatores que inibem o processo de internacionalização.'No Sul, os aspectos individuais dos gestores, descendentes de europeus, os deixam mais aptos a entender outras línguas e culturas', afirma Luciana Marques Vieira, professora do mestrado em administração da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.'As empresas acabam mais orientadas para vencer as barreiras do mercado internacional.'

Para outros estudiosos, a localização geográfica, distante dos grandes centros consumidores do País, e o empreendedorismo, típico da região, reforçaram essa disposição. 'A precariedade das comunicações no passado contribuiu para que as empresas sulinas vissem nos portos um caminho para escoar sua produção', diz o professor Álvaro Cyrino, da Fundação Dom Cabral. 'Assim, ter operações fora foi um passo natural para o espírito empreendedor dos empresários locais.'

Herança migratória ou não, o fato é que apenas na Serra Gaúcha, há um bom número de exemplos de empresas que estão construindo sua presença no exterior. É o caso de grandes grupos, como Tramontina, de Carlos Barbosa, Marcopolo e Randon, ambos de Caxias do Sul, que mesmo líderes no mercado nacional não se acomodaram e partiram para o crescimento além-fronteiras. Ou, então, de empresas de menor porte,como a novata Cinex, de Bento Gonçalves, que em menos de cinco anos experimenta sua segunda incursão internacional, com investimentos de mais de US$ 2 milhões ( leia o quadro ao lado).

FÔLEGO CURTO

A perda de fôlego do mercado, foi o principal motivo que levou a Marcopolo, uma das maiores fabricantes mundiais de carrocerias para ônibus, a descobrir, ainda nos anos 1990, que a melhor alternativa para crescer era fazer as malas. 'Quem consegue enfrentar as dificuldades do mercado brasileiro está preparado para operar em qualquer lugar do mundo', diz José Antônio Fernandes Martins, vice-presidente da Marcopolo.

Embora exportasse desde 1961, foi a partir dos anos 90 que a Marcopolo intensificou suas vendas no mercado externo. No início eram embarcados ônibus completos, mas as tarifas de importação impostas por alguns países e o alto custo do frete começaram a dificultar a operação. A empresa passou, então, a enviar os seus produtos desmontados e finalizar a fabricação com parceiros locais. Mais tarde, o processo evoluiu para a instalação de fábricas próprias. Em 1991, a Marcopolo inaugurou sua primeira unidade no exterior, em Portugal. Logo depois, vieram as fábricas do México, Colômbia, África do Sul e da Argentina, que acabou desativada na crise de 2001. Ao todo, suas subsidiárias estrangeiras geram cerca de 2.700 empregos.

As receitas externas da Marcopolo representaram pouco menos da metade de seu faturamento de US$ 843 milhões em 2005 . Essa participação, que já chegou a 60% (caiu com a desvalorização do dólar) deverá ser reforçada, com a entrada em dois dos mercados mais promissores do mundo para ônibus, Índia e Rússia, associada a grupos locais -Tata Motors e Ruspromauto, respectivamente.

INFINITO

Avançar no mercado externo com parceiros estrangeiros também tem sido a estratégia adotada pelo Grupo Randon, líder do mercado nacional de carrocerias para caminhões. 'O mercado mundial é infinito', diz Erino Tonon, diretor- corporativo da Randon. 'Somos líderes no Brasil, com cerca de 50% do mercado de semi-reboques, mas temos menos de 3% do mercado mundial.' Com exceção da Argentina, onde possui uma fábrica própria, a Randon está montando seus produtos na Argélia, Marrocos, Quênia e Cuba com sócios locais.

São eles que entram com as instalações físicas e a Randon, com a tecnologia e os componentes para serem montados. 'Não teríamos capital nem expertise de mercado para estabelecer essas operações sozinhos', diz Tonon. A Randon possui ainda centros de distribuição na Argentina, Estados Unidos e México, além de escritórios comerciais em vários outros países, como Emirados Árabes, China e Índia. Nos últimos cinco anos, o mercado externo dobrou de importância para o grupo. Em 2006, deverá representar 20% das receitas, estimadas em R$ 1,9 bilhão.

Além do fator migratório, Tonon arrisca outra explicação comportamental para a abertura de empresas da Região Sul, como a Randon, para o exterior. 'Quando uma empresa busca o mercado externo e tem sucesso, outras seguem o exemplo', diz Tonon. 'A gente procura saber por que o vizinho está indo bem e copia o que ele está fazendo."


Por Arlete Lorini - O Estado de São Paulo
Fonte: http://si.knowtec.com:8080/scripts-si/MostraNoticia?&idnoticia=398&idcontato=1853&origem=fiqueatento&nomeCliente=FUNCEX&data=2006-10-05

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