Baque nas exportações é menor entre emergentes
Os prognósticos para o comércio mundial em 2009 são dos mais difíceis.
O cenário é turbulento, já que a crise global atingiu em cheio a demanda e o crédito, dois dos principais alicerces para a troca de mercadorias. No entanto, o abalo não deve ter a mesma intensidade em todas as regiões do planeta e promete provocar menos danos no Brasil.
Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu recuo de 11% no volume de bens e serviços comercializados entre os países. Para a Organização Mundial de Comércio (OMC), a queda ficará em 9%. Caso se confirme, será um resultado muito ruim. Em volume, o comércio internacional cresceu 7% em 2007 e ainda se manteve no terreno positivo em 2008, apesar dos efeitos da crise nos países ricos.
A previsão dos economistas para o Brasil é de queda entre 4% a 5% da quantidade exportada em 2009. Nos EUA, a redução pode chegar a 15%, ou seja, o triplo do Brasil, prevê o banco JPMorgan. A Europa deve amargar queda de 8% no volume de exportações - um vetor importante de crescimento para países como a Alemanha.
Mesmo comparado às nações emergentes, onde o comércio tende a ser menos afetado, o Brasil está em situação mais confortável quando o assunto é exportações. As previsões para o país são menos pessimistas do que para México (-5,5%), Argentina (-12%) ou Rússia (-11%).
O país resiste melhor aos abalos por uma série de fatores: a desvalorização do câmbio, que melhorou a competitividade dos produtos, a base de comparação fraca, pois a quantidade exportada pelo Brasil caiu 2,5% em 2008, e a primarização de suas exportações, avaliam os especialistas.
Para Welber Barral, secretário de Comércio Exterior, o país também é beneficiado por sua forte competitividade em commodities e pela diversificação de produtos e mercados, o que reduz o impacto da crise em relação a países como o Chile (exportação concentrada em cobre) ou México (mais de 90% das vendas vão para os EUA).
É o perfil da pauta. A demanda por commodities, principalmente agrícolas, é mais estável, disse Fernando Ribeiro, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). A fatia dos produtos básicos nas exportações brasileiras subiu de 23% em 2000 para 38,5% nos 12 meses até março, o maior percentual desde o início do anos 80.
A teoria econômica tradicional recomenda que os países agreguem valor às exportações para gerar mais postos de trabalho. Quando a renda e o emprego se recuperam, países que vendem manufaturados saem mais rápido da crise, sustenta Maurício Moreira Mesquita, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
A questão é que, enquanto as dificuldades perduram, os países reduzem as importações de praticamente tudo, menos de comida. Além disso, a crise atual está prejudicando mais duramente o mercado de manufaturados, como evidenciam as fortes quedas de exportações nos países da Ásia, explica Júlio Callegari, economista do JPMorgan.
Como os problemas surgiram no mercado de capitais dos EUA, a turbulência provocou rapidamente uma crise de confiança e uma interrupção dos fluxos financeiros. Esse movimento secou o crédito para as exportações (o que foi um dos principais mecanismos de contágio dos países emergentes) e também para a manutenção de estoques. Sem acesso a capital de giro, as indústrias tiveram que queimar estoques e reduzir produção.
A produção industrial colapsou de maneira generalizada e liberou um processo de ajuste de estoques em escala global. Com todos esses produtos disponíveis ao mesmo tempo, os preços caíram e se instalou uma forte deflação dos produtos industriais, diz Callegari. Adicione a isso o fato de os EUA, maior comprador mundial de manufaturados, estarem no centro do problema e o cenário é de tormenta.
O Brasil, neste caso, não é exceção. No primeiro trimestre do ano, o volume exportado de produtos manufaturados caiu expressivos 28,7%, mas foi parcialmente compensado pelo de básicos, que subiu 10,6%. Ribeiro, da Funcex, não acredita que a queda no comércio de manufaturados vá ser tão pronunciada, mas reforça que 2009 será um ano de redução das vendas brasileiras de produtos industrializados.
Nas commodities, outro fator que está surpreendendo os economistas e ajudando o Brasil é o desempenho da economia da China. Muito dependentes dos mercados americano e europeu, as indústrias exportadoras chinesas acusaram o golpe: demitiram em massa e algumas chegaram a fechar as portas. Porém, os primeiros sinais de recuperação do dragão asiático já animam o mercado.
Nas contas do JPMorgan, o PIB chinês, que recuou 2,2% no quarto trimestre anualizado, deve subir 5,8% no primeiro e voltar a crescer dois dígitos no segundo (10,8%). O efeito do pacote fiscal do governo chinês tende a ser mais rápido, porque o país não é uma economia de mercado, dizem os especialistas. Boa parte dos gastos é feita pelas estatais e os bancos, que também estão nas mãos do governo, estimulam de forma agressiva o crédito.
Segundo Mesquista, do BID, existem muitas dúvidas se a recuperação da economia chinesa é consistente, e se o país vai conseguir substituir as exportações pelo mercado interno como principal fonte de crescimento. Mas o Brasil já é visto com um dos países que mais vão beneficiar-se da recuperação chinesa, por vender as commodities que o país asiático precisa.
Outro argumento usados pelos economistas para criticar a concentração das exportações brasileiras em commodities é que esses produtos são sensíveis às flutuações do mercado. O Brasil está, sim, sofrendo com a queda dos preços provocada pela crise, o que prejudica os termos de troca do país. Mas, pelo menos até o primeiro trimestre do ano, a maior demanda estava compensando os menores preços.
Fábio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, ressalta que o mercado de commodities voltou a experimentar uma bolha em março, com a chegada de investidores que não querem se arriscar em ações, mas tampouco se contentam com a remuneração nula dos títulos do Tesouro americano.
Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex / Valor Econômico








