Crise mundial - Chances são boas para o Brasil
Governo aposta que o país resistirá bem à crise global, mesmo com metade do mundo já em recessão.
A economia internacional está estranha. Metade do mundo já entrou em
recessão, segundo o economista sênior da Goldman Sachs, Binit Patel, e,
no entanto, é enorme a incerteza sobre como o inverno da economia
global repercutirá sobre os preços das commodities, entre elas a mais
importante, o petróleo. Para o Brasil, petróleo não é, ainda, um
produto-chave, mas alimentos e matérias-primas têm peso considerável
nas exportações e no circuito industrial doméstico.
O que será dos preços internacionais das commodities é função da saúde
da economia da China, quarta maior do mundo, mas consumidor número um
de quase todas elas, sobre a qual se sabe pouco, apenas o que permite
revelar o fechado governo chinês. E o que se filtrou, nos últimos dias,
é o que informa uma nota do JP Morgan, divulgada semana passada, dando
conta de que estaria em preparação um pacote de estímulos fiscais para
ativar a demanda interna.
Tal
pacote chegaria a 1,5% do PIB, segundo publicou um jornal de Pequim
especializado em economia, o Economic Observer, atribuindo a informação
a um assessor não identificado da pasta de Finanças.
A
medida viria para substituir o arranque exportador que começa a perder
força pela desaceleração econômica em seu maior mercado, os EUA. China
e EUA alimentam entre tapas e beijos uma relação quase simbiótica,
responsável pelo desbalanceamento das contas externas globais. Os
chineses exportam boa parte dos bens consumidos pelos EUA e importam
títulos de dívida do Tesouro e empresas americanas.
Um
depende do outro. Os EUA, da redução das importações. A China, da
solvência do dólar e do sistema bancário americano. É o dólar a moeda
de referência das colossais reservas da China, mais de US$ 1,8 trilhão
- também compostas por estimados US$ 400 bilhões de papéis das duas
grandes refinanciadoras semi-estatais de hipotecas dos EUA, Fannie Mae
e Freddie Mac. Japão teria US$ 200 bilhões.
Entende-se
por que o Federal Reserve abriu uma rede de proteção, assegurando a
adimplência de todos os papéis de emissão de ambas. Por maior que seja
a crise, o castelo de cartas dos títulos não pode ruir. Mas ao mesmo
tempo ela só se estabilizará quando os EUA diminuírem a dependência da
alucinante economia Fire - acrônimo de finance, insurance e real estate
-, tocada a ativos financeiros, o que exige reduzir seus déficits da
balança comercial. E, para que a economia global não tombe, que a China
aqueça o mercado interno, ratificando a teoria do descolamento do mundo
emergente.
Zelando pelo ânimo
Muitos
são os condicionantes sobre a evolução futura da economia brasileira,
tornando-se fácil, neste cenário de incertezas, mudar para pior a
favorável percepção do empresariado e investidores de fora. A maior
ameaça é a interrupção do ciclo de investimentos na expansão da
capacidade instalada, em grande parte orientada pelo governo, mas de
responsabilidade do capital privado.
Dos
dois maiores riscos, um se vai amainando, a inflação, embora o Banco
Central ainda não tenha corroborado tal quadro. Persiste a avaliação de
que o descompasso entre o ritmo do consumo vis-à-vis a oferta constitui
fator inflacionário maior que dos preços altos das commodities. O BC
terá trabalho para sustentar essa tese.
Até aqui vai tudo bem
O
outro risco, de aumento gradativo dos déficits do balanço de pagamentos
em conta corrente, é diretamente ligado ao desempenho exportador, que
depende da economia global, sobretudo dos EUA, o maior importador de
produtos brasileiros, e a China, que começa a tomar da Argentina este
ano a segunda posição no ranking do fluxo comercial. Tais avaliações
foram discutidas na terça-feira entre o presidente Lula e o seu comitê
de assessoramento econômico.
A
conclusão, que será repetida na apresentação do presidente do BNDES,
Luciano Coutinho, sobre o estado dos investimentos no país aos membros
do Conselho de Desenvolvimento e empresários de elite, nesta
quinta-feira, é que a economia brasileira só se fragilizará se houver
uma severa recessão no mundo, risco considerado remoto.
Intuição admirável
A
intuição de Lula é admirável. Ele convocou a apresentação sobre os
investimentos ao constatar por pesquisa que a população conhece mal os
objetivos e a autoria do PAC. O que poderia ser um show de propaganda
se tornou crucial para clarear os rumos da economia e sustentar o ânimo
empresarial. Lula acerta até sem querer.
Uma
recessão profunda não poupa ninguém. Mas mesmo nos EUA não há tanta
certeza de que virá o pior, apesar da desgraceira dos ativos
financeiros do país. A projeção é que a expansão do PIB desacelere de
2,2% em 2007 para 1,5% este ano e 0,8% em 2009, mudando o sinal em
2010, quando cresceria 2,7%. Para a China, o Standard Chartered - banco
inglês com forte presença de capital chinês - prevê queda do ritmo de
crescimento de 11,9% em 2007 para 9,9% este ano, 8,6% em 2008 e 8% em
2010, evolução considerada mais saudável para quem cresce, nas últimas
duas décadas, impulsionado por investimentos e não pelo consumo
interno. Tais números não cheiram a crise brava e sim a um ajuste
necessário ao cenário de menor liquidez do dólar.
Tais números amparam a visão de Coutinho, que não prevê quebra do ciclo investidor no Brasil, no máximo projeta redução pontual, por ora um cenário mais adequado que o pessimismo desmobilizador.
Fonte: Correio Braziliense / http://www.global21.com.br/








