Crise nos EUA ameaça mais o México e a América Central
A crise americana provocará impactos em todos os países das Américas, mas os reflexos mais agudos serão sentidos pelas economias mais integradas com a dos EUA, aquelas que mantêm acordos de livre comércio com os americanos.
Alguns desses países, como Honduras e México,
poderão ver suas exportações encolherem mais de 10% nos próximos anos e
até mesmo enfrentar o risco de mergulharem em suas próprias recessões.
O Brasil seria pouco afetado.
As projeções constam de uma estudo produzido pelo Center for
Economic and Policy Research (CEPR, na sigla em inglês), entidade de
pesquisas sem fins lucrativos sediada em Washington, nos EUA. O
trabalho avalia impactos nas exportações para o mercado americano com a
desaceleração da economia do país. Os autores apostam que a retração
deverá "acelerar um processo inevitável" de ajuste e redução do déficit
comercial dos EUA, que em 2006 atingiu o pico - insustentável, dizem
eles - de 5,8% do Produto Interno Bruto (PIB). O estudo faz dois
cenários: que o déficit caia para 3% ou 1% em 2010.
Nos dois casos, os países mais atingidos pela redução das importações
americanas serão os que integram os tratados livre comércio com os EUA:
o Nafta (México e Canadá) e o Cafta (Guatemala, El Salvador, Costa
Rica, Nicarágua, Honduras e República Dominicana).
O estudo estima que a queda das exportações do Canadá para os EUA
poderão representar uma redução de 13,5% do total das exportações
canadenses. No caso do México, 14,6%; Nicarágua 13,5%; e Honduras,
15,5%. Para o economista Luis Sandoval, um dos autores do estudo
intitulado "O Impacto Econômico da Desaceleração dos EUA nas Américas",
o reflexo sobre esses países poderia ser definido como um "efeito
colateral" dos acordos de livre comércio.
"Nas negociações desses acordos, os argumentos se baseavam nos
benefícios trazidos pelo aumento das importações dos EUA e em projeções
de contínua aceleração americana", disse ele por telefone ao Valor. "As
possibilidades de desaceleração são difíceis de se prever e os
negociadores talvez não tenham levado muito em conta esse cenário."
É claro, lembra ele, que no período de crescimento acelerado da
economia americana, os acordos promoveram ampliação das vendas para os
EUA de têxteis, alimentos processados, como açúcar, e produtos
primários de países pobres da América Central. O problema, diz, é que o
efeito adverso será tão intenso quanto os ganhos.
Segundo o estudo, as economias mais dependentes deverão experimentar
uma forte redução da entrada de divisas, redução de postos de trabalho
ou até mesmo de recessão. Na última recessão americana, em 2001, o PIB
do México teve um "avanço" real de 0%. "E a próxima recessão dos EUA
(possivelmente já em curso) provavelmente será pior".
Os países da América do Sul estariam mais protegidos. As economias
da região são descritas pelo estudo como mais fechadas e
consequentemente com PIBs menos dependentes das receitas de importações
exportações. Além disso, os EUA não são, em geral, um cliente
predominante. As exportações da Argentina para o país representam só
1,6% do PIB argentino; 2,9% do Brasil e 15% da Venezuela - dos quais
95% são relacionados ao petróleo. E como o consumo americano de
petróleo e gás não deve cair, dizem os pesquisadores, os efeitos da
crise na Venezuela e noutros exportadores de energia, como Canadá e
Equador, "devem ser mitigados".
Fonte: Valor Online Newsletter - Ano 5 nº 1977 - 01/4/2008








