Cristina e Lula não removem barreiras
Licenças não-automáticas, centro dos desentendimentos atuais entre os dois países, continuam em vigor.
Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina,
Cristina Kirchner, mostraram-se ontem incapazes de contornar a
controvérsia em torno das licenças não-automáticas aplicadas sobre as
importações de produtos de lado a lado da fronteira. As medidas
continuam a vigorar.
Como gesto paliativo, Lula e Cristina
criaram uma comissão de ministros dos dois países, que se reunirá a
cada 45 dias, para tratar as pendências, e avalizaram um documento de
oito pontos, no qual seus governos indiretamente reconhecem que
descumpriram regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre
licenças não-automáticas.
Durante quatro horas, na manhã de
ontem, autoridades das chancelarias e dos ministérios de indústria dos
dois países tentaram, em vão, extrair uma solução para a controvérsia,
que afeta entre 14% e 17% do comércio bilateral. O Brasil queria
estabelecer um cronograma de eliminação gradual das licenças e
interromper a adoção de novas barreiras. A Argentina queria que apenas
o Brasil extinguisse as licenças para seus produtos.
O documento
técnico avalizado por Lula e Cristina ontem traz um compromisso
indireto da Argentina de expedir as licenças não-automáticas em até 60
dias, a partir do começo de 2010. Trata-se do prazo previsto pela OMC.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,
Miguel Jorge, a Argentina demorava em torno de 180 dias para emitir as
licenças a importadores de produtos brasileiros.
O Brasil, por
sua vez, se comprometeu a informar previamente a Argentina sobre a
adoção de licenças não-automáticas. O prazo definido pela OMC é de 21
dias. Ao adotar a aplicação das licenças não-automáticas, no mês
passado, o governo brasileiro não tomou o cuidado de avisar
antecipadamente a Argentina, que agora ameaçava iniciar um contencioso
no tribunal do Mercosul.
Fontes do governo brasileiro resumiram
que o entrave é conceitual, quase ideológico. O Brasil crê que a melhor
forma de impulsionar o desenvolvimento é o livre comércio - princípio
básico do Mercosul. A Argentina insiste que, sem a administração do
comércio, sua indústria vai desaparecer. A divergência emergiu até
mesmo nos discursos de Lula e de Cristina, em almoço no Itamaraty.
Nossa
resposta à crise deve ser mais comércio e investimentos. O
protecionismo não é solução. Apenas cria distorções difíceis de
reverter, disse Lula. A Argentina não pode desconhecer a escala da
economia brasileira e a consistência de sua indústria, conquistada ao
longo do tempo. Somos uma sociedade. Mas há um sócio maior e outro
menor, contrapôs Cristina.
A presidente argentina assumiu um tom
ácido ao rebater, em seu discurso, a declaração de Lula de que o Brasil
é o destino de 70% das exportações industriais do país vizinho.
Cristina afirmou que as exportações de manufaturas para a Argentina
ajudam o Brasil a reduzir o seu déficit global no setor. Também
insistiu que o argumento em favor da liberalização não passa de teoria.
Uma coisa é o que se diz e outra é o que as economias adotam.
Lula
e Cristina decidiram que se reunirão a cada 60 dias. Mas, antes do
próximo encontro, a comissão de ministros da Fazenda, Relações
Exteriores e Indústria vai abordar o imbróglio das licenças e tratar
dos casos de produtos brasileiros foram substituídos, na Argentina, por
concorrentes de outros países, sobretudo chineses.
Esse novo
grupo de trabalho se sobreporá a outro existente há quatro anos, em
nível de vice-ministros, para tratar das barreiras aos mesmos produtos
- a Comissão de Monitoramento do Comércio.
Fonte: O Estado de São Paulo / Kaduna/IEA/Funcex Sistema de Informações - 19/11/2009








