Designer piracicabano expõe peça em Milão
A qualidade e, principalmente, a proposta de trabalho do designer piracicabano Gustavo Dias o levou, pela segunda vez, a expor uma peça no Salão de Móveis de Milão
Evento esse onde arquitetos, decoradores e profissionais do setor revelam as mais
recentes tendências em móveis e objetos de decoração. Designer de móveis e
objetos, Dias desenvolveu um banquinho – batizado de Totó – inspirado no
cachorro, “o melhor amigo do homem”.
Confeccionado com o que Dias
chama de “madeira de rua”, o banquinho tem 35 centímetros de altura – é todo
feito com encaixes e cola – e foi concebido para ser uma espécie de coringa na
decoração, um mascote da casa. “Serve tanto para um sala, quanto para cozinha,
quarto ou qualquer outro ambiente”, explica. Justamente por ser um coringa, pode
ser usado como banco, mesinha de apoio, apoio para os pés, para colocar uma
revista, entre outras utilidades. “Gosto de trabalhar com peças bonitas mas que
carreguem uma forte consciência da matéria-prima”, afirma.
Madeira de rua
significa tudo o que Dias encontra garimpando as caçambas das ruas de São Paulo,
onde mora e trabalha, ou em qualquer outro local. “Geralmente as madeiras que
encontro em caçambas são a peroba e o ipê”, observa. No meio rural, o designer
explora desde dormentes de mata-burros jogados no meio do mato até portas e
janelas que estão esquecidas em algum lugar. “Uma madeira de mata-burros, por
exemplo, pode parecer estragada por fora mas conserva no centro o que existe de
melhor”, comenta.
Justamente por valorizar tanto o reaproveitamento de
madeira, ele chama sua matéria-prima de “madeira de redescobrimento”. “O nome se
deve ao fato dela já ter sido explorada e agora ganha uma nova função pois o
principal objetivo é redescobrir, transformar e dar vida útil à matéria-prima
descartada”, conta. E a produção consciente fez com que o designer desenvolvesse
sua própria marca, a Woo Design. “A única saída que eu vejo para o meu trabalho
é conseguir produzir com consciência”, afirma. E Dias não pára de criar. Sua
lista de produtos inclui desde marcadores de livros até fruteiras, sempre com um
lindo design, sem deixar de lado o forte apelo ecológico.
“O design para mim
é uma ferramenta pois creio que o mundo busca hoje peças bonitas mas com
consciência da matéria-prima”, fala. O kit de marcadores de livros, por exemplo,
foi confeccionado com madeiras perdidas desde as décadas de 30 e 40. Cada
marcador tem gravado o nome da espécie da madeira com que foi feito, em inglês e
português “pois eu produzo minhas peças para o mundo”. Ele acredita que as
pessoas não são obrigadas a saberem a espécie da madeira mas que, gravando nas
peças, consegue levar um pouco do conceito de produto consciente para quem
adquire algo seu.
Expor no Salão de Milão é motivo de orgulho para o jovem
designer. “Isso prova que meu trabalho está em pé de igualdade com profissionais
valorizados em todo o mundo. Mas defendo que uma peça que carregue a preocupação
que tenho no meu trabalho, tem um valor maior”, afirma. E Dias acredita que o
mundo vem mudando nos últimos anos quando se fala de consciência. “Muita gente
ainda não conhece ou não se preocupa, mas há quem dê muito valor para essa idéia
do redescobrimento da madeira”, diz.
DESIGN POSSÍVEL – A iniciativa de
levar o Totó para ser exposto no Salão de Milão partiu de Ivo Pons, designer e
professor do Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi dele também a idéia do
projeto Design Possível, com cunho social e ecológico. Dias comunga do ideal de
Pons, que busca a inclusão social e a conscientização ecológica de comunidades
em situação de vulnerabilidade em nossa sociedade, utilizando-se do design como
ferramenta fundamental nesse processo.
O projeto é desenvolvido em cooperação
entre professores e estudantes do curso de desenho industrial do Mackenzie e da
Universidade de Firenze, juntamente com organizações não governamentais
envolvidas (ONG’s) e profissionais estabelecidos no mercado de design. Eles
trabalham em comum no desenvolvimento de novos produtos ecologicamente corretos
e socialmente justos, no intuito de, através da comercialização destes, prover
subsídios para a sustentabilidade das comunidades. “Tem muita gente fazendo
coisas legais e é importante que as pessoas conheçam esses trabalhos para,
depois, valorizá-los”, afirma Dias.








