Fraquezas expostas
A valorização do real desnuda as verdadeiras ineficiências que corroem a competitividade das empresas.
Desde que a cotação do dólar caiu a menos de 2 reais, em 15 de maio -- marca que a moeda americana não atingia havia seis anos --, as discussões a respeito do que fazer para conter a valorização do real tomaram conta do país. Uma fatia do empresariado tem clamado por algum tipo de compensação aos setores mais atingidos, demanda que parece encontrar eco na Esplanada dos Ministérios -- o recém-empossado Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, por exemplo, admite o socorro a produtores têxteis e de calçados. Esse é um debate, porém, que tem andado desvirtuado, e o país arrisca desperdiçar uma excelente oportunidade para olhar de perto os reais obstáculos ao crescimento econômico. "Os problemas que têm sido creditados ao câmbio, na verdade, estão relacionados a deficiências profundas do ambiente de negócios no Brasil", afirma o economista americano Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia e uma das maiores autoridades mundiais no estudo de políticas cambiais. "Mirar a taxa de câmbio é olhar para o lado errado."
A experiência do grupo gaúcho Randon -- fabricante de tratores, carretas e autopeças que fatura 1 bilhão de dólares por ano -- é emblemática para ilustrar esse ponto. Recentemente, uma das empresas do grupo deixou de vender 3 000 carretas a um cliente americano após perder uma concorrência para a chinesa Cimc. Até aí, poderia ser apenas mais um exemplo da superioridade chinesa em termos de competitividade produtiva. Mas, nesse caso, a perda nada teve a ver com qualidade ou tecnologia. Tanto que, assim que os chineses fecharam o negócio, vieram atrás da própria Randon para comprar justamente a parte mais nobre da carreta, o eixo, já que eles não tinham condições de atender às especificações dos americanos. O item que tirou a Randon do negócio foi o preço, e, nesse caso, o vilão não foi o câmbio, na época na casa dos 2,30 reais. Do valor de 20 000 dólares cobrado pela carreta brasileira, 4 000 correspondem a impostos embutidos nas matérias-primas utilizadas em sua fabricação. Do lado chinês, os impostos totalizam 400 dólares -- isso por causa dos eixos brasileiros. Caso a carreta fosse integralmente fabricada na China, teria imposto zero. Lá, as exportadoras que operam nas zonas livres não pagam nenhum tributo, nem mesmo os incidentes sobre energia elétrica, telefonia e mão-de-obra. O pior da história é que em 2008 a Cimc começará a produzir o eixo tal qual os americanos exigem. Resultado: a Randon perderá também essa venda. Pode parecer pouco para uma companhia que vem apresentando um crescimento fabuloso nas exportações, que passaram de 85 milhões de dólares em 2005 para 210 milhões no ano passado. Mesmo assim, seus sócios e executivos estão preocupados. "Não podemos nos iludir com o momento atual", diz Erino Tonon, diretor de operações da Randon. "Estamos vendendo bem porque o mundo está muito comprador, mas esse cenário não é permanente e ninguém sobrevive exportando 20% de impostos."
Em uma economia cada vez mais
globalizada, é claro que a taxa de câmbio pesa no poder de negociação
das empresas, tanto para o bem quanto para o mal. O lado positivo se dá
na forma de importações mais baratas, o que vem ajudando um número
grande de companhias a fazer novos investimentos em máquinas e
equipamentos -- caso, por exemplo, da CSN, que deve concluir uma nova
fábrica de cimento ainda neste ano. Há o outro lado da moeda, já que o
dólar fraco faz os artigos nacionais sofrerem com a concorrência de
similares importados, que chegam mais barato ao país, e complica a vida
dos exportadores. No entanto, em condições normais de temperatura e
pressão -- ou seja, num país com um ambiente favorável aos negócios --,
variações cambiais são encaradas como parte da vida econômica. "Quanto
mais eficientes forem a economia e as empresas de um país, mais baratos
serão seus produtos em relação a outros, e mais espaço eles terão tanto
no mercado externo quanto no interno, apesar das variações do câmbio",
afirma o economista Nathan Blanche, sócio da consultoria Tendências. "É
assim que as vantagens comparativas se impõem e ocorre a seleção
natural dos mais aptos."
Por Roberta Paduan
Fonte: http://portalexame.abril.com.br/economia/








