Governo argentino prioriza China
Dados obtidos pelo Estado apontam que, no primeiro semestre, a Argentina liberou mais licenças de importação para sapatos e móveis chineses do que brasileiros, provocando desvio de comércio.
Os burocratas argentinos privilegiaram deliberadamente os exportadores da China ao invés do Brasil. Dados obtidos pelo Estado apontam que, no primeiro semestre, a Argentina liberou mais licenças de importação para sapatos e móveis chineses do que brasileiros, provocando desvio de comércio.
A
situação só foi revertida no fim de julho após forte pressão
do governo brasileiro, inclusive do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, que resultou em uma liberação maciça das
licenças. A menor burocracia e o início da recuperação da
economia argentina contribuíram para o Brasil voltar a ter um
superávit com o país vizinho, de US$ 81 milhões, em
julho.
O governo argentino liberou, em média, licenças
de importação para 560 mil pares de sapatos brasileiros por
mês no primeiro semestre. O volume é inferior aos 615 mil
pares mensais autorizados para a China. No setor de móveis,
entraram na Argentina, por mês, 100 mil unidades vindas da
China, contra 60 mil do Brasil.
Os dados foram
entregues pelo subsecretário de política e gestão comercial da
Argentina, Eduardo Bianchi, para o secretário-executivo do
Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, na última reunião
bilateral, na semana passada, informaram empresários que
tiveram acesso ao documento.
Segundo
as informações do governo argentino, o Brasil respondeu por
36% das licenças liberadas no primeiro semestre para sapatos,
enquanto a China abocanhou 39%. Nos móveis, os chineses
ficaram com 60% das licenças e os brasileiros com 30%. O setor
de calçados é submetido ao monitoramento manual das
importações desde 2005. O sistema começou em março deste ano
para móveis.
Segundo
Heitor Klein, diretor-executivo da Associação Brasileira da
Indústria de Calçados (Abicalçados), o setor tinha informações
de que os argentinos privilegiavam os chineses. Mas nunca me
deram uma explicação convincente para isso. Ele disse que, na
última reunião,Bianchi garantiu que a participação dos
chineses vai baixar, graças a aplicação de uma tarifa
antidumping.
Empresários
contam que a liberação de licenças de importação na Argentina
é manual e, por isso, está sujeita a lobbies e existem até
suspeitas de corrupções. Além disso, o volume de pedidos para
a entrada de calçados chineses cresceu com a crise, por conta
do desvio para a América do Sul de produtos que não foram
vendidos na Europa e nos EUA. Segundo as fontes, para agilizar
as licenças, os fabricantes de calçados instalados na China
utilizam o argumento de que compram couro na
Argentina.
Em
junho, os setores de móveis e calçados selaram acordos de
restrição voluntária das exportações com o governo argentino
com a promessa de liberação mais ágil das licenças. Mas o
acordo não foi cumprido. A situação motivou uma reclamação
direta de Lula com a presidente da Argentina, Cristina
Kirchner, na última reunião do Mercosul.
O presidente
Lula argumentou com a colega que ordenou pessoalmente que o
Brasil retirasse as licenças de importação contra a Argentina
no início do ano. Ele disse ainda que era complicado os
empresários terem firmado um compromisso, mas o acordo não ser
cumprido.
A
conversa foi no dia 24 de julho, sexta-feira. Na segunda-feira
seguinte, começou a reunião entre Brasil e Argentina. Os
argentinos chegaram atrasados, e anunciaram na terça a
liberação de uma grande quantidade de licenças para sapatos e
móveis. Uma fonte do governo brasileiro acredita que as
medidas foram tomadas na última hora. Nos setores que ainda
não fecharam acordos com os argentinos, com têxteis e linha
branca, a burocracia continua.
A
média mensal de liberação de licenças de importação de sapatos
para o Brasil subiu 96% em julho, para 1,1 milhão de pares.
Para os chineses, a média de liberações caiu 30%, para 430
mil. Em móveis, as licenças de importação autorizadas
atingiram 173 mil unidades em julho, 75% a mais que no
primeiro semestre. Para a China, caíram 188%, para 25 mil
unidades.
José Luiz Fernandez, presidente da Associação
Brasileira da Indústria de Móveis (Abimóvel), disse que uma
parte das licenças foi liberada pelos argentinos no mês
passado, mas já foram substituídas por novos pedidos. Fontes
do governo argentino disseram que, a partir de agora, está
garantido o cumprimento dos acordos.
Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex/O Estado de São Paulo








