Governo baixa o tom no comércio exterior
As intenções de baixar medidas para beneficiar os exportadores e conter
importações, especialmente as da Ásia, estão sob reavaliação. O ajuste
fiscal anunciado pelo governo minou os planos ambiciosos de eliminação
de impostos sobre a produção, embora a presidente mantenha alguns deles.
Uma análise mais detalhada sobre as regras de defesa comercial também
podou o pretendido ataque às importações, que será mais modesto do que
as primeiras declarações de Pimentel faziam imaginar. Pimentel, ministro
muito próximo a Dilma, tem uma dura tarefa pela frente, de ajustar os
desejos aos limites da ação do governo.
A próxima reunião da Camex deverá decidir e anunciar medidas para
encurtar os prazos de pagamento dos créditos tributários, a devolução,
às empresas, de tributos como o PIS e a Cofins, recolhidos indevidamente
no processo produtivo de mercadorias destinadas à exportação - isentas
de imposto. Por enquanto, porém, esse reembolso de taxas que nem
deveriam ter sido cobradas é a medida mais forte do pacote de
desoneração de tributos anunciado pelo governo. A falta de medidas de
grande impacto está entre os motivos por que Dilma decidiu não dar tanta
visibilidade à reunião da Camex quanto planejava.
Mas, apesar da suspensão das bondades fiscais, para avaliar melhor sua
afinação com o momento de aperto nas contas, Dilma não arquivou, por
exemplo, a ideia de reduzir o peso de contribuições sobre a folha de
salários, uma promessa de campanha, que pretende cumprir. Quando e como
são questões em aberto. Há, no governo, discussões para reduzir
gradativamente a contribuição sobre folha de salários, dos 20% atuais
para 14% ou 12%, gradativamente e, o que prefeririam as autoridades, uma
redução apenas para setores com maior emprego de mão de obra, como
calçados ou têxteis.
Como já informou Cristiano Romero neste jornal, um dos modelos estudados
é o aplicado para o setor de software, na Política de Desenvolvimento
Produtivo, pelo qual as empresas do setor podem ter reduzida sua
contribuição à Previdência, de 20% para 10%, sobre o faturamento obtido
com exportações. O objetivo do governo com a redução da contribuição
patronal e de outros encargos trabalhistas é não apenas dar maior
competitividade às exportações, mas também compensar os produtores
voltados ao mercado interno, reduzindo as vantagens que os concorrentes
importados ganharam com o real valorizado em relação ao dólar.
Os
empresários querem mais; na semana passada, o diretor de Relações
Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústria do Estado
de São Paulo, Roberto Giannetti, teve encontros com autoridades em
Brasília, e insistiu na necessidade de medidas para retirar o peso dos
impostos sobre investimentos. Voltou a São Paulo esperançoso. "Com a
carga tributária atual, alguns investimentos simplesmente não se
realizarão. Não se pode falar em perda de receita nesses casos",
argumenta.
Giannetti defende ação mais rápida do governo na redução de impostos
sobre investimentos em infraestrutura, por exemplo, capazes de aumentar a
competitividade de toda a indústria. O Ministério da Fazenda ainda não
parece sensibilizado por esse raciocínio, porém, e a desoneração de
investimentos, por enquanto, é apenas vontade.
No campo da defesa comercial, também, o novo governo tomou posse com
planos ambiciosos, de reduzir a até dois meses os processos antidumping
contra concorrentes, especialmente da Ásia, acusados de competição
desleal. Haverá reduções de prazos, especialmente com a informatização
dos processos, mas não será alterada a legislação, que atende às
exigências da Organização Mundial do Comércio e estabelece prazos não
inferiores a um ano para processos contra preços desleais nos
importados.
A lei permite a aplicação de direitos (sobretaxas) antidumping
provisórios, que podem, de fato ser adotados 60 dias após a abertura de
investigações. Esse é um caminho estudado pelo Ministério do
Desenvolvimento. A aplicação de direitos provisórios já vinha sendo
usada, e tem limites, já que são medidas emergenciais, em caso
comprovado de dano imediato à indústria. Não se deve esperar resultados
muito significativos desse instrumento.
Uma semana antes do adiamento da reunião da Camex, o ministro Pimentel,
amigo e interlocutor frequente de Dilma, ainda anunciava que ela seria
realizada, e teria decisões importantes para a competitividade do
comércio exterior brasileiro. É uma manifestação de empenho de Pimentel,
mas são grandes, como tem constatado o ministro, os limites,
financeiros, legais econômicos e políticos para medidas de resultado
imediato e significativo. Boa parte da pauta de importações é reflexo
das estratégias de produção das grandes multinacionais, e são
importantes para preservar a competitividade das linhas de produção no
país, ameaçadas pela persistência do real valorizado.
O adiamento da reunião da Camex e a dificuldade para contar com a
presença da presidente da República mostram que, apesar do interesse em
mudar a situação no comércio exterior, o governo se vê obrigado a
reavaliar os planos que acalentava ao tomar posse, há menos de dois
meses. Ressalta, também a dificuldade para reverter a perda de
competitividade da indústria brasileira.
Fonte: http://www.global21.com.br/ (21/02/2011)








