Governo quer reduzir taxas ao exportador
Ministro admite grande resistência da base aliada à taxação da caderneta de poupança, mas diz que irá negociar no Congresso.
Depois do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 2% na entrada
de capital externo, o governo estuda medidas para baratear o custo das
taxas de pré e pós-embarque dos exportadores a fim de compensar o real
valorizado, disse o ministro Guido Mantega (Fazenda). Ele afirmou,
porém, que a queda na arrecadação tirou espaço fiscal para fazer a
desoneração da folha de pagamento no momento, medida prometida as
exportadores.
Mantega reconheceu que pode haver setores no Banco
Central contrários à criação do IOF na entrada de capital estrangeiro,
mas disse que isso contraria o presidente do BC, Henrique Meirelles,
que foi favorável à decisão. O ministro afirmou também que tentará
convencer a base aliada no Congresso a adotar alguma medida em relação
à taxação da caderneta de poupança, mas reconheceu que há, de fato, uma
grande resistência da base à medida. Não vou me antecipar, vou discutir
com eles, a base tem de estar concordando, afirmou, defendendo a
iniciativa como necessária para garantir a queda dos juros no futuro.
Ao
ser lembrado que os líderes governistas recuaram do apoio inicial dado
à decisão, o ministro afirmou que isso ocorreu, talvez, porque se
aproximou o período eleitoral, recuaram porque ninguém quer fazer
maldade, mas isso não é uma maldade. (VALDO CRUZ)
FOLHA - Podem vir novas medidas na linha do IOF?
GUIDO MANTEGA
- Em relação a esse tipo IOF, não. Podem vir medidas que ajudem a
exportação, baratear um pouco mais as taxas de pré-embarque,
pós-embarque do exportador.
FOLHA - A desoneração da folha de pagamento para beneficiar os exportadores vai sair ou o espaço fiscal está curto?
MANTEGA
- O espaço fiscal diminuiu, e então não estamos prontos para fazê-la.
Mas outras serão pensadas para reduzir o custo financeiro para
compensar o câmbio valorizado, reduzir o custo burocrático.
FOLHA - O Banco Central foi ou não consultado sobre o IOF?
MANTEGA
- Não é que foi consultado, discutimos juntos, como discutimos todas as
medidas anticrise. São discutidas, amadurecidas, existe perfeita
unidade entre nós com essa medida. Inclusive conversamos juntos com o
presidente, e eu não a tomaria se não houvesse concordância do núcleo
duro da política econômica.
FOLHA - Circulou a informação de que o BC foi só informado, não consultado?
MANTEGA
- Não é verdade. Pode ser que haja alguma discordância, alguém lá
dentro que divulgou isso, mas isso contraria o presidente Meirelles. O
que veio oficial foi uma nota do Meirelles confirmando que participou
da discussão da medida e foi favorável a ela, inteiramente, do jeito
que ela está, sem nenhuma ressalva.
FOLHA - O
presidente Lula havia segurado o envio do projeto que prevê a taxação
da caderneta de poupança. Reservadamente, disse a assessores que era
contra, a não ser que o sr. o convencesse da necessidade da medida.
Agora, diz que vai enviar o projeto ao Congresso, mas talvez em outras
bases.
MANTEGA - Há, de fato, uma grande resistência
da base aliada a um projeto que tenha alguma taxação, mesmo que seja
plenamente justificada. Agora, tem de olhar que o governo está
desonerando bastante, inclusive a pessoa física.
FOLHA - Mas a resistência da base e até da ala política do governo à taxação é muito forte.
MANTEGA
- Veja, a resistência é forte, mas eu vou discutir com eles
oportunamente, porque esse projeto é só para o ano que vem. Agora, é
claro que precisamos estar sintonizados, a base tem de estar
concordando, para ver como fazemos para aprovar alguma medida, que é de
interesse da população porque queremos que os juros continuem caindo.
Se não fizermos isso, não dá para ter uma economia que vai reduzindo
todos os juros e ter um juro fixo, uma rentabilidade rígida na
economia.
FOLHA - No próprio governo há quem defenda uma solução definitiva, pondo fim à rentabilidade fixa da poupança?
MANTEGA
- Não vou me antecipar, vou discutir com eles, afinal Executivo e
Legislativo têm uma parceria, tenho de ouvir a base, discutir com ela.
Eles vão tentar me convencer ou vou tentar convencê-los, e a gente
costuma chegar a um acordo, porque no final das contas prevalece o
interesse nacional. Todos querem que os juros continuem caindo.
FOLHA
- Qual será a proposta alternativa que o sr. fará à divulgada antes, de
taxar em 22,5% de Imposto de Renda as poupanças acima de R$ 50 mil?
MANTEGA - Antes, fizemos uma reunião com o presidente e todos os líderes políticos, e a ideia foi aprovada por todos.
FOLHA - Mas depois recuaram.
MANTEGA
- Bom, talvez porque se aproximou o período eleitoral. Recuaram porque
ninguém quer fazer maldade. Mas isso não é uma maldade. Aparentemente é
uma maldade, se olhar o fato isolado.
FOLHA - O sr. ficou decepcionado com a decisão de manter inalterados os juros, avaliava que poderia cair?
MANTEGA - O BC é que sabe, se pode cair ou não. Se achou que devia ficar, é porque estava correta a decisão.
FOLHA - A arrecadação de setembro manteve-se em queda. Assim, a meta de superavit não será cumprida?
MANTEGA - A meta vai ser cumprida neste e no próximo ano. Pode escrever e me cobrar, vai ser cumprida.
Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex/Folha de São Paulo








