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Indústria moveleira de Santa Catarina agoniza

O maior pólo exportador de móveis do país, localizado em São Bento do Sul, Norte de SC, vê as suas estruturas ruírem no terceiro ano de uma crise deflagrada pela desvalorização do dólar.

Mais caro no exterior, o produto catarinense não é páreo para o baixo custo daqueles fabricados na China, o que derrubou as exportações e compromete a sobrevivência de indústrias quase centenárias.

No dia-a-dia da cidade, a população descobre na prática os efeitos da recessão.  Cerca de 2 mil vagas de emprego foram fechadas e a falta de trabalho começa a expulsar parte de seus 73 mil habitantes.

A Indústrias Zipperer, mais antiga fábrica de móveis da região, fechou as portas a três semanas de completar 85 anos.  No dia 25 de abril, a direção da empresa, composta pela terceira geração da família fundadora, reuniu, no pátio da fábrica, os 75 operários - que eram 320 há três anos - para comunicar o encerramento das atividades.

A Zipperer não resistiu às perdas causadas pela desvalorização do dólar, que derrubou os rendimentos da empresa, concentrados 95% no mercado externo.  O faturamento, mantido em US$ 6,5 milhões entre 2003 e 2006, despencou 46%, para US$ 3,5 milhões no ano passado.

Essas perdas, ao serem convertidas para a moeda nacional, amplificam-se: do pico de aproximadamente R$ 20 milhões, o faturamento caiu para o patamar de R$ 7 milhões.

- Paramos enquanto tínhamos condições de arcar com nossas dívidas - afirma o diretor Carlos Alexandre Zschoerper, caminhando no silencioso galpão da fábrica entre as poucas máquinas que restaram, todas desligadas.

Das grandes, a empresa foi a única a encerrar as atividades completamente, mas a maioria das fábricas da região registrou severas retrações devido às perdas com o dólar, cuja cotação despencou de R$ 3,60 para R$ 1,60 em cinco anos.

São Bento do Sul é acompanhado em sua posição de maior pólo exportador de móveis do Brasil pelos municípios vizinhos de Campo Alegre e Rio Negrinho.  Nas três cidades, que juntas formam a região do Alto Vale do Rio Negro, o setor de madeira e móveis soma cerca de 450 estabelecimentos, voltados quase integralmente à exportação.

As perdas em dólar, com a manutenção dos contratos firmados com os clientes no exterior, significaram para as fábricas da região ainda menos dinheiro em real, com que pagam os seus fornecedores e empregados.  Enquanto que na moeda americana as exportações da região caíram de US$ 335 milhões, em 2005, auge dos negócios no setor, para US$ 286 milhões no ano passado, convertido para o real, o tombo foi ainda pior: queda de R$ 815 milhões para R$ 559 milhões.


Foco no mercado nacional é complicado


O faturamento menor significou o encolhimento de grandes empresas.  A Intercontinental e a Neumann teriam cortado linhas de produção, mantendo apenas as que fabricam peças vendidas no mercado interno.

Voltar-se aos clientes nacionais, no entanto, não é uma opção simples.  As fábricas do Alto Vale do Rio Negro acostumaram-se a produzir peças para vender no exterior, feitas com madeira maciça, mais nobres e mais caras.  Os móveis com maior aceitação entre os consumidores brasileiros, por outro lado, são mais baratos, fabricados com aglomerado de madeira.

A solução mais indicada pelos que se mantêm fortes é o corte de custos por meio da reestruturação das fábricas.  Os processos produtivos estão sendo otimizados, com redução de desperdícios, melhor aproveitamento da matéria-prima, renegociação com fornecedores e cortes no quadro pessoal, como indica o vice-presidente da Federação das Indústrias de SC (Fiesc) na região, Arnaldo Huebl.

Na fábrica que comanda, a Móveis Weihermann, ele obteve até aumento do faturamento durante a crise.  Em dólar, a receita do último ano subiu 14%, caindo apenas 9% em real.  Para este ano, Huebl projeta crescimento de 27% na moeda estrangeira.

A reestruturação das empresas, por outro lado, representou o fim do emprego na fábrica Artefama para o operário Marcos Balbinoti.  Supervisor de corte de madeira, o seu setor acabou unido ao de colagem da madeira, o que significou a eliminação da vaga.  Na semana seguinte à sua dispensa, em meados de maio, foi a vez da mulher, Adriana, demitida da área de controle de qualidade de outra fábrica.

Em seus seis anos na Artefama, Marcos começou no posto de auxiliar da produção e avançou por mais dois cargos até alcançar a posição de supervisor.  Aos 32 anos, a formação que adquiriu com cursos e a experiência na fábrica estimularam-no a procurar algum cargo à altura das necessidades de sustentar a mulher e a filha de quatro anos.  Marcos preencheu fichas nas agências de emprego, mas até agora nada.

O tempo que espera pela reposição já é maior do que o que teve de aguardar quando chegou a São Bento do Sul.  Em janeiro de 2002, mudou-se para a cidade vindo de Francisco Beltrão, no Paraná, onde acabara de casar.  O convite partiu do cunhado, que já trabalhava em uma fábrica são-bentense.  No mês seguinte, Marcos estava empregado.

Com a poupança que possuía, ele começou a construir a casa e a finalizou com o dinheiro do novo emprego.  O salário também lhe rendeu a compra de um Pálio 0km, ano 2004, modelo 2005, que quitou no final do ano passado.  Pelos bens acumulados e a casa própria, Marcos diz que pensa duas vezes antes de largar tudo e recomeçar em outra cidade.


Crise fez com que mil migrassem


A migração para municípios vizinhos foi a alternativa para cerca de 4 mil pessoas da região desde o início da crise.  Com o setor automobilístico aquecido no país, metalúrgicas e fábricas de peças de Joinville, Jaraguá do Sul e Blumenau têm absorvido a mão-de-obra.  Muitos desses migrantes são reincidentes, já que um dia também chegaram a São Bento do Sul de outras regiões, atraídos pela então aquecida indústria moveleira.

O êxodo dos desempregados configura-se em um dos fatores a colaborar pela preservação da organização e capricho germânico característico da cidade.  As ruas continuam com os seus parquímetros e meios-fios reluzindo a tinta nova e canteiros e fachadas em ordem, sem vestígios da mendicância ou violência que uma recessão poderia trazer.

Na casa de Marcos tudo também continua em ordem, apesar de faltar uma pintura para o muro e a construção da calçada, coisas que pretendia fazer com os próximos salários.

Enquanto não consegue uma nova vaga nem decide deixar a cidade, ele passa os dias inquieto em casa.  Em plena tarde de uma terça-feira, assistia na ponta do sofá à partida entre Espanha e Rússia pela Eurocopa, algo impensável para quem até pouco tempo atrás cumpria o turno das 7h às 16h48min na fábrica.

Na sala de casa, o televisor de 20 polegadas em que acompanha os jogos do campeonato encaixa-se, ao lado de revistas e fotos da filha, na estante feita de aglomerado de madeira e coberta por lâmina de mogno - peça distinta dos móveis tipo exportação, de madeira maciça e design europeu, que ajudava a produzir em sua ex-fábrica.


João Werner Grando (joao.grando@diario.com.br)


Cenário piora com elevação dos custos


Mesmo após indústrias terem fechado e milhares de empregados terem ido para a rua, a situação do setor moveleiro da região do Alto Vale do Rio Negro pode ficar ainda pior.  O cenário, que havia praticamente se estabilizado com o dólar firme, apesar de baixo, começa a sofrer outro tipo de pressão: a inflação dos custos de produção.

Segundo o vice-presidente da Fiesc na região, Arnaldo Huebl, os itens que compõem a planilha de custos estão acompanhando a alta geral da inflação no país.

- A combinação de elevação de custos e baixa da receita em dólar pode ser fatal para as empresas.

A maioria dos fatores de produção teve alta nos últimos dois anos.  A embalagem de papelão sofreu o maior reajuste, 22%, seguida do composto de fibras de madeira MDF, com 8%, tendo a inflação do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) chegado a 7,75%.  O dólar, por sua vez, caiu 9,7%.  Outras altas são previstas para este ano com o reajuste do diesel, que deve deixar o frete 8% mais caro, e o aumento da inflação, que pode elevar a mão-de-obra em 6,5%, afirma Huebl.


Inadimplência subiu 36% no comércio


O agravamento da crise significará maiores dificuldades à população local.  No ano passado, Danieli Schisler conseguiu o primeiro emprego em uma fábrica de móveis de São Bento do Sul.  A recessão, no entanto, colocou a jovem de 19 anos na rua menos de seis meses após a contratação.  Danieli, que ganhava um salário mínimo para trabalhar das 5h às 14h48min, classificando peças de madeira, agora procura emprego.

- Mas não encontro nem ao menos um anúncio nas vitrinas e nos painéis das agências.

No comércio, os impactos chegam na forma de inadimplência.  Os maus pagadores cresceram 36% em relação ao ano passado, e as consultas ao SPC, um termômetro para medir o volume de vendas, caíram 21%.  Para o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Orlando Torinelli, a situção já dá sinais de melhora: o número de pessoas limpando o nome no crediário cresceu 36% em relação ao ano anterior.


Estratégia revelou-se um erro


Em meio a cortes de pessoal, reestruturações e falências, um conjunto de empresas, invariavelmente, deve sobreviver à recessão.

- Haverá um número menor, mas as que suportarem a crise sairão fortalecidas - garante o consultor Adelino Denk, da AMC Assessoria Empresarial, de São Bento.

Acompanhando o setor há três anos, Denk é taxativo:

- As empresas erraram ao colocar todos os ovos em uma só cesta: a exportação.

O equívoco não é incorrigível e ele acredita que os mais competentes poderão sobreviver.  Para isso, sugere adaptações, como desenvolver novos produtos, melhorar a produtividade e concentrar-se no mercado europeu.

A crise atual será mais uma a determinar mudanças no setor, como outras fizeram ao longo da história.Na origem das fábricas de hoje estão as marcenarias, montadas no final do século 19 por imigrantes alemães.  A partir dos anos 1920, fábricas de referência foram fundadas.


Sofisticação dos produtos dificulta


A forte demanda pela construção civil e por móveis nos anos 1970, graças ao "milagre econômico" e a criação do Banco Nacional de Habitação (BNH) deu lugar à recessão nos anos 1980, a década perdida.  Para recuperar as vendas, a prospecção de clientes internacionais foi a solução natural.

A vocação exportadora foi reforçada nos anos 1990, com a abertura do país ao mercado internacional.  No final da década, a disparada do dólar mais uma vez corroborou a opção pela exportação, que atingiu seu pico em 2005.

A queda recente do câmbio forçou nova revisão nos negócios.  Mas as fábricas da região haviam investido na sofisticação dos móveis de madeira maciça de tal forma que se distanciaram da realidade brasileira de consumo.

"Quando (o consumidor) opta por comprar móveis, o preço passa a ser o atributo mais relevante, mesmo em detrimento da qualidade", afirma Lairton Comerlatto, em dissertação de mestrado da Economia da Universidade Federal de SC (UFSC).


Vila operária corre o risco de sumir do mapa


Serro Azul, no interior de Rio Negrinho, tinha 650 habitantes há um ano; hoje, não conta mais de 300. Encravada no interior de Rio Negrinho, a 46 quilômetros de estrada de chão do centro da cidade, a Vila Cerro Azul pode desaparecer.  Abalada pela crise da desvalorização do dólar, a fábrica de móveis instalada na isolada localidade demitiu quase dois terços dos funcionários, que estão abandonando o povoado em busca de emprego.

A Móveis Rueckl, cuja crise agora esvazia a vila, foi a responsável, há 65 anos, por sua formação. Os fundadores escolheram a região montanhosa e desabitada para instalar uma serraria movida a água.  Acompanhando o surto industrial dos móveis na região do Alto Vale do Rio Negro, forjaram uma fábrica exportadora de peças em madeira maciça para EUA e Europa.

Longe de qualquer povoado, a empresa construiu 85 casas, emprestadas às pessoas que chegavam para trabalhar na fábrica.  Com a expansão dos negócios, mais mão-de-obra foi atraída, dessa vez com a doação de terrenos onde os novos empregados poderiam construir suas moradias.

Até o início da crise, em 2006, 260 operários e suas famílias ocupavam 150 casas na vila, que conta com escola, creche, posto médico e um campo de futebol de medidas oficiais.  A queda do dólar, porém, deu outro destino ao povoado que um dia almejou ser promovido a distrito.

A queda nas exportações fez a Rueckl deixar de encher nove containeres por mês para despachar apenas três.  A Vila Cerro Azul, erguida no entorno da fábrica, sentiu o impacto.  O quadro de pessoal reduziu-se a 90 funcionários e parte das casas hoje tem janelas pregadas com tábuas e o fio de luz desligado.


Alguns demitidos resolveram ficar


Quem ainda não saiu agarra-se à segurança de ter um teto para morar, mas não vê perspectivas no local.  Funcionário durante 11 anos no plantio do pínus usado na fábrica, Pedro Rodrigues chegou de Palmas, no Paraná, e casou-se com outra funcionária, Noeli, vinda de Itaiópolis com os pais, há 25 anos.

- Todas essas árvores ao redor fui eu que plantei.  Agora eles estão colhendo para usar a madeira.

Os três filhos adultos, que moravam na vila e trabalhavam na fábrica, deixaram o local e conseguiram empregos em outras cidades.  Pedro andou procurando no Paraná, mas, como nada estava muito certo, resolveu ficar.  Ainda ocupa a casa emprestada pela Rueckl e, aos 58 anos, tem uma filha bebê para criar.

Os diretores da fábrica estimam que a população de 650 habitantes, há um ano, tenha se reduzido a 300.  Um dos que mais sentiu o êxodo foi o dono de um dos dois comércios locais.  Nelci Purim, enteado de um dos fundadores da Rueckl, diz que as vendas fiadas acumulam R$ 80 mil.

- Muitos foram embora e deixaram a conta.  Nunca mais voltam para pagar - fala em meio a risos de quem sabe que não há o que fazer.

Seu comércio é dividido em duas partes.  De um lado, mercearia com alimentos e bazar com brinquedos e confecções.  Do outro, um bar, ponto de encontro para os operários na saída da fábrica e nos fins de semana.

Na estante, Nelci guarda um troféu de cinco andares com a gravação: "Campeão de Society - Volta Grande".  O título, disputado no distrito vizinho, em 2004, foi vencido pelo União Cerro Azul, time da vila.

- Agora não tem nem gente suficiente para fechar um time - reclama Ercy Purim, antigo titular do União e sócio na Rueckl.

Mesmo na fábrica, os diretores dizem que a rotina não é a mesma.  Em uma tarde de dia útil, a sócia Silvane Rueckl divide-se nas funções administrativas, no trabalho de secretária ao lado do telefone e na classificação dos parafusos usados nos móveis.

- Em crise e sem gente, temos que fazer um pouco de tudo.


Todos unidos para reerguer a economia


Após a queda, a indústria moveleira da região de São Bento do Sul busca estratégias para se reerguer.  Ao mesmo tempo, poder público e empresários tentam promover a diversificação da economia, que, no início da crise, dependia cerca de 50% da exportação dos móveis.

A primeira iniciativa para levantar os moveleiros é a estruturação de um Arranjo Produtivo Local (APL) das fábricas do setor.  Por meio da estratégia, 62 empresas do Alto Vale do Rio Negro, região que abrange São Bento do Sul, Rio Negrinho e Campo Alegre, irão alinhar as suas ações no campo comercial e político.

Juntas, elas pretendem criar uma central de comercialização para negociar preços de venda de seus produtos e de compra com os seus fornecedores.  Agindo em grupo, com demandas e ofertas de grande escala, espera-se que os contratos acertados sejam melhores.

Na política, o APL deve se aproximar da frente parlamentar catarinense no Congresso e também de deputados de outras regiões que defendem interesses dos fabricantes de móveis.

Uma das principais reivindicações é a cobrança dos créditos tributários obtidos pelas exportações.  Em estudo publicado, o setor estima que o governo federal deva às indústrias cerca de R$ 35 milhões, e o Estado, R$ 23 milhões.  A soma dos créditos seria equivalente aos prejuízos acumulado pelas fábricas até 2007.


Novo selo irá certificar resonsabilidade ambiental


Outro fruto da organização do setor será o lançamento do selo "biomóvel".  Essa espécie de certificação comprovará a procedência social e ambientalmente responsáveis dos móveis fabricados na região.  De acordo com um dos organizadores do APL, Osvalmir Tschoeke, o selo vai apenas reforçar e dar evidência à produção local que já segue normas exigentes, devido às condições impostas pelos clientes europeus.

Tschoeke também está à frente de outra iniciativa, neste caso com o objetivo de diversificar as possibilidades econômicas da região.  Ele é o gerente de uma incubadora de empresas de tecnologia que está sendo instalada em São Bento do Sul.

Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Roberto Corrêa da Silva, a prefeitura estimula a diversificação da economia desde 2005, véspera da crise do setor moveleiro.

Ele destaca o interesse da instalação de empresas de setores como automobilístico e têxtil da cidade, atraídas pela mão-de-obra qualificada e incentivos que a administração municipal têm dispensado.

Fonte: http://www.ces.fgvsp.br/index.cfm?fuseaction=noticia&IDnoticia=119700&IDidioma=1

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