Indústria perde para importados
A indústria nacional continua dando sucessivos sinais de crescimento, especialmente na produção, nos empregos e nos salários pagos no setor. Mesmo assim, há um aparente descompasso com o aquecimento da demanda que incomoda a Confederação Nacional da Indústria (CNI) — o potencial de evolução seria bem maior caso o ritmo das fábricas estivesse mais próximo do consumo.
“A indústria está crescendo, mas poderia ser muito
mais caso a produção acompanhasse o ritmo da demanda. Isso aconteceu em
2004, um ano de crescimento muito bom, mas está bem diferente agora,
porque as importações estão ficando com uma grande fatia”, afirma o
economista da CNI, Paulo Mol, que ontem divulgou os resultados do setor
em maio.
De fato, crescimento existe. As horas trabalhadas
na produção, indicador da entidade para o ritmo das fábricas,
ampliou-se em 1,1% na comparação com abril, 3,6% no acumulado do ano e
em 4,1% sobre maio do ano passado — caso em que representa o décimo
aumento consecutivo. Mais longa ainda é a evolução dos postos de
trabalho, que crescem há 18 meses quando se leva em conta o mesmo mês
do ano anterior — o índice avançou 3,5% sobre maio de 2006 e 3,4% nos
cinco primeiros meses do ano. Também nos cinco meses, a remuneração
média ficou 5,5% maior.
O revés ficou por conta do faturamento das
empresas, que caiu 0,5% em relação a abril. Nesse caso, a CNI
responsabiliza a contínua desvalorização do dólar, que retira
rentabilidade das vendas externas da indústria, assim como força uma
redução na margem de lucro internamente devido à concorrência com
artigos importados. O recuo nas vendas reais também fora verificado em
abril (-2,4%), mas, ainda assim, o faturamento das indústria acumula
alta de 4% em 2007.
Como reconhece o economista da CNI, portanto, há
números favoráveis para o setor. O que leva a uma análise menos
otimista do que era de se esperar está nas diferenças de tamanho das
passadas da produção e do consumo interno. Como lembrou Mol, o ano de
2004 foi o melhor para a economia no passado recente. Os dados do IBGE
mostram que o PIB cresceu 5,7% e a indústria teve desempenho ainda
melhor, com alta de 6,2%. Naquele ano, foi a principal responsável por
atender a elevação de 4,3% no consumo das famílias.
Já no ano passado, porém, o ritmo mudou. Apesar do
consumo ter repetido o aumento de 4,3% de 2004, a indústria cresceu
apenas 2,8%. E a mesma tendência continua em 2007. Segundo os dados
divulgados pelo IBGE sobre o primeiro trimestre, o consumo das famílias
elevou-se em 6% de janeiro a março, enquanto a indústria avançou a
metade, 3%.
Para a CNI, a diferença está sendo ocupada pelos
produtos importados. Como mostram os dados da balança comercial
brasileira, os bens de consumo representam o item de maior crescimento
entre os importados — eles tinham aumentado em 41,4% no ano passado e
nos primeiros seis meses de 2007 já avançaram outros 34,3%. Eram pouco
mais de 11% de tudo o que o país comprava lá fora no final de 2005, mas
hoje já chegam a 13,3% da pauta de importação.
Concentração
Outra preocupação
da CNI está no desempenho desigual dos segmentos industriais. Segundo a
entidade, apenas quatro deles — alimentos e bebidas, máquinas e
equipamentos, metalurgia básica e produtos químicos — respondem por 90%
do aumento de 4% das vendas este ano. Na geração de empregos essa
concentração se mostra ainda maior, com o setor de alimentos e bebidas,
muito favorecido pela recuperação da renda, responsável por seis de
cada 10 postos criados entre janeiro e maio.
Diferenças à parte, os números da CNI mostram que
índices de crescimento são mais regra que exceção no desempenho geral
da indústria. E o mais eloqüente sinal de aquecimento vem do indicador
de utilização da capacidade instalada, que chegou a 83,2% em maio. No
acumulado do ano ele foi um pouco menor, 81,5%, mas ainda assim
representa um nível dois pontos percentuais acima do mesmo período de
2006. “Mas deve ter uma melhora no segundo semestre pela trajetória dos
investimentos”, acredita o economista-chefe da CNI, Flávio Castelo
Branco.
Fonte: Sistema de Informação IEA/Funcex - Correio Braziliense








