InterfaceFLOR mostra como encontrou alternativas
A InterfaceFLOR, fabricante de carpetes que, em 2006, faturou US$ 1 bilhão é considerada precursora em sustentabilidade empresarial nos Estados Unidos.
SÃO PAULO, 6 de novembro de 2007 - Fundada em 1973, a companhia sofreu uma mudança radical no seu modelo de negócio em 1991. Inspirado pela leitura de um livro - "A Ecologia do Comércio", de Paul Hawken - o dono e principal executivo da empresa, Ray Anderson, iniciou uma profunda revisão nos processos visando, sobretudo, reduzir desperdícios, economizar recursos e reaproveitar os carpetes usados como matéria-prima. Entre outras medidas, à época tidas como ousadas, Anderson criou o Life Cicle Assessment (Avaliação do Ciclo de Vida), um programa que se preocupa com a vida útil do produto, especialmente para onde ele vai depois de descartado pelo consumidor.
A meta é zerar os impactos negativos da
companhia até 2020. No rumo de se tornar totalmente sustentável, planeja para os
próximos anos um sistema de leasing de carpetes, pelo qual o cliente paga o
direito de uso do produto por alguns anos, e ao final do período, a empresa
retira o carpete, recicla e o substitui por outro.
Com 35 fábricas
espalhadas em 150 países, a corporação obteve, na última década, uma economia de
US$ 336 milhões com a redução do uso de água e energia. O índice de carpete
reciclado na linha de produção saltou de 3% para 21% nos últimos cinco anos.
Hoje, todo produto fabricado é 100% reciclável. Entre 1994 e 2006, o lucro
aumentou 82%, mesmo com a retração de mais de 30% no mercado de carpetes
norte-americano. "A sustentabilidade é como óculos. Assim como cada um usa
lentes compatíveis com o seu problema de visão, cada empresa tem que pensar nos
seus próprios processos e concluir qual a melhor forma de amenizar ou zerar os
seus impactos no Planeta", afirma Claude Ouimet, vice-presidente da empresa para
o Canadá e América Latina. Na entrevista a seguir, concedida à revista Idéia
Socioambiental, Ouimet fala como a empresa transformou suas estratégias de
negócio, sobre "mindshare" e liderança
socioambientalmente responsável.
Como vocês resolveram o problema da
poluição causada pela companhia?
Claude Ouimet - Com paixão e consciência.
Ao compreender as conseqüências dos impactos gerados pela companhia e adquirir
uma consciência de que se está poluindo o ambiente e profanando a sociedade, não
há como se sentir bem com o que se faz. Ninguém se sente bem fazendo o mal. Foi
o que aconteceu conosco. A partir desta reflexão, convencemo-nos de que tínhamos
que fazer algo a respeito, e então, começamos a enxergar os caminhos.
Há
quem ainda diga que nossa decisão está correta, mas que é muito caro se tornar
"verde". A essas pessoas respondo: "Você está tendo um pensamento velho, precisa
confiar que se fizer a coisa certa, com propósito elevado, os clientes e a
sociedade vão reconhecer suas atitudes e te ajudarão no que está tentando
fazer." Para que o produto não fique mais caro, o preço da condição
socioambientalmente responsável não seja repassado ao cliente e a empresa
mantenha-se competitiva, é preciso ser criativo. Fazer as coisas certas sem
perder competitividade requer capacidade de inovação. A nossa experiência mostra
que quando a empresa sabe comunicar as idéias certas ela atrai as pessoas
certas, compromissadas com as novas idéias, e, portanto, fica mais preparada
para tomar a iniciativa em direção da sustentabilidade. O talento dessas pessoas
ajuda a empresa a construir as soluções que a tornarão sustentável.
Que
avaliação a empresa fez de seus impactos no meio ambiente?
CO - O quadro era
preocupante. Primeiro, estávamos perdendo muita água em nossos processos de
produção. Segundo, o uso de produtos químicos tóxicos para tingir os carpetes
deixava resíduos nocivos na água. Estávamos usando náilon e pvc. E o resultado
do desperdício ia inteiramente para aterros sanitários. Carpete, como se sabe,
não é um produto biodegradável. Além disso, utilizávamos uma quantidade absurda
de energia para produzir o nosso material, esgotando recursos que não podem se
renovar, como gás ou petróleo. A análise dessa situação nos levou a refletir
sobre o fato de que tanta energia poderia ser aplicada a coisas mais úteis e
deveria ser preservada para uso das próximas gerações. Era necessário, portanto,
reduzir urgentemente a quantidade de energia. Mas como? Reduzindo os produtos
químicos e os materiais sólidos do nosso processo de produção. Foi o que
fizemos. Mas ainda faltavam as emissões de gases.
Seguindo um procedimento
nosso, passamos a analisar as diferentes formas de poluir com base no
desperdício financeiro gerado por elas. E o desperdício é um bom indicador
porque tem a ver com qualidade. Desde que o programa de sustentabilidade começou
na empresa, reduzimos em 72% as emissões gasosas, 68% do consumo de eletricidade
e 95% do consumo de água.
Como os clientes da Interface são informados da
atitude sustentável da empresa e que tipo de valor atribuem a isso?
CO -
Nunca quisemos fazer publicidade de nossas convicções de sustentabilidade. De
1995 até 2005, nenhuma propaganda da empresa tratou. O muito que fizemos foi
elaborar um relatório de ações ambientais. E isso porque fomos cobrados por
algumas pessoas. Acreditamos que o marketing não pode projetar o que somos e
pensamos. Para nós, o marketing é apenas o alvoroço de uma tempestade.
Preferimos mobilizar pessoas que contem uma história. Não a história da
Interface, mas a da sustentabilidade. E não na página cinco, mas na capa dos
jornais. Fomos capazes de disseminar a nossa história utilizando o poder da
influência positiva, sem ter de recorrer ao alvoroço do marketing. Ray Anderson,
principal executivo da companhia, mentor desse movimento verde, nunca admitiu
que usássemos propaganda. Utilizamos essa ferramenta há pouco tempo e apenas
para nos posicionar diante dos ataques que vínhamos recebendo. Algumas pessoas
começaram a colocar em dúvida o que fazemos. Então, tivemos que deixar as coisas
claras.
Sem usar propaganda, como as pessoas sabem sobre as práticas
socioambientais da InterfaceFLOR?
CO - Temos um princípio na companhia que
pode se aplicar a este caso: quando se atinge as pessoas, invariavelmente
recebe-se um retorno. Cada vez mais as pessoas estão preocupadas em basear suas
decisões de compra em algo correto. Querem se sentir bem sobre a sua decisão. É
nisso que apostamos. O consumidor que não compra nosso produto, no fundo vai se
sentir um pouco constrangido, porque sabe que a nossa empresa reproduz todos os
valores com os quais alguém de bem gosta de se identificar. Muitas pessoas
compram na Interface por uma questão moral. Claro que um belo design, boa
relação de benefícios e soluções inteligentes valorizam os nossos produtos. Mas
nossos consumidores se identificam moralmente com a empresa. Em nome dessa
relação, trabalhamos sempre para inovar. Sustentabilidade é inovação.
A
decisão de tornar-se sustentável gerou resultados financeiros concretos para a
empresa?
CO - Sim, sem dúvida. Entre 1995 e 2006, economizamos U$ 235
milhões. Olhando apenas os lucros, hoje vendemos mais carpetes, inovamos para
reduzir os custos a patamares não alcançados pela concorrência e também criamos
um valor importante, que chamo de "Mindshare". As pessoas compram da gente,
porque conseguimos dividir a nossa mente com os clientes, estabelecendo uma
forte ligação emocional.
Pelo que o senhor conta, a implantação de uma
cultura de sustentabilidade na Interface só foi possível porque a empresa tinha
em Ray Anderson um líder comprometido pessoalmente com o tema. Qual o perfil de
um líder socioambientalmente responsável?
CO - Um líder responsável precisa
entrar em contato com ele mesmo e descobrir os valores que o orientam e motivam.
Deve compreender claramente o seu papel no mundo. E saber que não se vive apenas
para satisfazer o ego. Impulsionar a carreira, sedução do poder e do dinheiro
têm a ver com ego. O bom líder sustentável sabe que, acima do mercado estão os
valores. Sabe que a felicidade não advém necessariamente do acúmulo de capital e
riquezas materiais. Nós, seres humanos, nos sentimos melhor com as nossas vidas
quando os valores que nos regem são fundados na coletividade.
Como Ray
Anderson conseguiu mobilizar os funcionários e os clientes em torno da idéia de
que a sustentabilidade faria bem aos negócios da InterfaceFLOR?
CO - Depois
de ler um livro revelador, "A Ecologia do Comércio", de Paul Hawken, Ray fez uma
auto-análise. Acreditando que vivia em nome do ego, e reconhecendo-se como um
saqueador da natureza,
ele percebeu o tipo de gente que, na verdade, ele queria ser. Ray tinha a firme
crença de que a mudança não só era possível como urgente e necessária. Por isso,
olhou nos olhos de todo mundo e disse mais ou menos o seguinte: "Vocês me
conhecem, estou mudando, já me sinto diferente do que era. Sou realmente o que
eu vos digo." Essa revelação, dita com sinceridade, foi suficiente para nos
inspirar. Claro que havia também o fato de que estávamos diante da verdade de um
homem muito poderoso. A escolha de um homem assim, que pode comprar o que quiser
no mundo, tem uma força descomunal. Para um executivo consagrado como Ray, dizer
"não quero mais ganhar dinheiro dessa forma", foi uma decisão relevante. Acho
que todo mundo que tem o poder de dirigir
uma empresa deve se perguntar: "Quais as conseqüências de usar meu dinheiro para
algo tão egoísta, um prazer pessoal que não muda para melhor a vida de ninguém?"
O que o senhor recomendaria a dirigentes de empresas que querem começar a
tornar a sua empresa sustentável?
CO - Diria para terem certeza de que estão
inspirados, porque uma pessoa sem inspiração não pode inspirar ninguém a fazer
mudanças. O primeiro ponto é acreditar que se está fazendo a coisa certa. E que
é possível fazer bem o que é bom para a sociedade e o Planeta. Se os
funcionários acreditarem profundamente nisso, vão enxergar o que se precisa
fazer nos seus próprios cenários. Até porque esse não é só o melhor caminho, mas
o único. Veja o caso do aquecimento global. Hoje nem o mais incrédulo dos
indivíduos tem dúvida de que o clima está mudando e por interferência do homem.
A ciência está tentando entender as graves conseqüências das mudanças climáticas
para a humanidade. Não há hoje ninguém que, diante do quadro, não tenha se feito
perguntas como "Qual é a minha responsabilidade nisso?" ou "O que posso fazer
para mudar?"
(Colaborou Caio Neumann) (Ricardo Voltolini - Gazeta Mercantil)
Fonte: http://www.gazeta.com.br/integraNoticia.aspx?Param=40%2C0%2C+%2C1034425%2CUIOU - 06/11/2007








