Madeira Legal
Em tempos ecologicamente corretos, cada vez menos gente quer carregar nos ombros o peso de tantas árvores derrubadas.
Por isso, cresce a procura por móveis e projetos arquitetônicos feitos com
madeira legal, ou seja, não extraída clandestinamente. Mas ter preocupação
ecológica não é o único pré-requisito para ter em casa estantes lindas, armários
amplos e consciência limpa. A onda verde ainda esbarra no preço. Móveis e
objetos fabricados com a chamada madeira certificada, com selo que garante sua
(boa) procedência, podem custar mais caro.
O arquiteto Luiz Marinho diz
que, há quatro anos, era difícil comprar madeira certificada em pequena
quantidade, para ser usada em apenas um móvel ou em parte de um projeto:
“As
marcenarias só vendiam em grande volume, o que inviabilizava seu uso numa
pequena reforma”, conta. “Por outro lado, a indústria de móveis se beneficiou
disso, produzindo peças bacanas.”
Foi uma dessas que ele usou num
apartamento com vista para o mar de São Conrado. A cadeira Diz, de Sergio
Rodrigues cujas obras são feitas em madeira certificada desde 2001 está em um
dos ambientes da sala de estar.
E como reconhecer um móvel feito com
madeira acima de qualquer suspeita? A senha está na sigla FSC (de Forest
Stewardship Council, ou Conselho de Manejo Florestal), entidade internacional
que concede um certificado atestando que a madeira foi extraída de forma
sustentável ou por reflorestamento. No mundo todo, a indústria madeireira
movimenta em torno de US$ 400 bilhões. Do Brasil e de países da África, saem as
madeiras mais cobiçadas, porém clandestinas.
“Os asiáticos são os
maiores compradores dessa madeira ilegal. Um cedro extraído da Amazônia não tem
reposição, é uma árvore centenária”, lamenta o arquiteto Caco Borges.
Ele
recorre a uma pergunta simples e certeira para convencer clientes menos
sensíveis às questões ambientais:
“De que adianta ter uma estante de peroba
se você contribui para sua extinção?”
Hoje, segundo ele, as pessoas fazem
suas escolhas pelo desenho, mas a tendência é que a consciência ambiental
cresça.
“Em Milão, onde é realizada a principal feira de design do mundo,
isso está a cada dia mais presente”, diz Caco, que, recentemente, usou móveis
com madeira certificada da empresa Florense para montar uma casa na
Barra.
Todos os móveis da Florense têm garantia de origem. Ela recebeu o
certificado ISO 14001, de gestão ambiental. Para dar mais visibilidade à causa,
a loja da Barra vai lançar a revista ‘Verde’ no dia 27. E para que o consumidor
tenha mais intimidade com o tema, as madeiras dos armários serão identificadas
por plaquinhas, como acontece nos jardins botânicos mundo afora. Entre elas,
estarão o carvalho vermelho e a cherry, extraídos do Parque Nacional do Governo
Americano, uma área nos EUA em que o corte é controlado; o palissandro natural,
vindo da Bolívia com declaração de origem florestal e autorização do Ibama; e o
palissandro rio, uma lâmina obtida pela colagem de sobras de madeira
italiana.
Sócio da Cap Marcenaria, do Espírito Santo, Nicanor Nunes diz que a
onda ecológica atingiu em cheio o setor. Ele fornece para grandes escritórios de
arquitetura do Rio, como os de Miguel Guimarães, Ivan Rezende e Thiago
Bernardes, e diz que nenhum deles quer saber de madeira clandestina.
Tampouco querem os móveis todos em eucalipto, a árvore mais usada em
reflorestamento. A madeira da marcenaria capixaba vem da Aracruz Celulose,
empresa líder no plantio de eucalipto. Em 1999, em resposta ao mercado negro,
ela registrou a marca Lyptus, desenvolvida a partir das árvores Eucalyptus
grandis e Eucalyptus urophilla. As árvores são cultivadas em 144 mil hectares de
reflorestamento no Espírito Santo e na Bahia.
A dona da loja Way Design,
Eliana Pazzini, conta que vez ou outra recebe um cliente consciente:
“Eles já
chegam pedindo: “Me mostra o que você tem em madeira certificada.” Por isso,
nossa oferta é cada vez maior.”
Essa preocupação das lojas vem
facilitando o trabalho de arquitetos como Solange Medina, que sugeriu ao dono de
uma cobertura na Barra a compra de duas peças certificadas do designer Pedro
Useshe:
“Tanto a poltrona Flexus quanto a mesa lateral Tensor têm traços
modernos e combinam com o ambiente descontraído que ele queria”, diz,
acrescentando que nenhum cliente, até hoje, desistiu de comprar um móvel em
madeira certificada por causa do preço.
A arquiteta Ana Americano também
acredita que preço não chega a ser um impedimento para quem quer fazer sua parte
pelo planeta. Foi por sua sugestão que a cobertura de um jovem casal ganhou um
deque ecologicamente correto. Em volta da piscina, entraram 16 metros quadrados
de pinus. Para resistir à exposição ao tempo, a madeira foi tratada com resina.
A arquiteta conta que conheceu a madeira certificada no Sul do país.
“Lá,
o pessoal é mais antenado com as questões ambientais e ela é usada há tempos”,
conta. “As madeiras certificadas custam cerca de 30% mais do que o MDF ou as
madeiras compostas, obtidas pela prensa de lascas e sobras. Mas elas não são
mais caras do que as maciças.”
A popularização chegou a redes de lojas
como a Tok & Stok, que lançou três peças certificadas em 1999. Hoje, a
empresa tem uma linha inteira, incluindo uma chaise longue para áreas externas,
batizada internamente de Ecossocial.
A arquiteta Claudia Lemos acredita
que arquitetos e decoradores têm seu quinhão de responsabilidade na questão
ambiental. E defende a idéia de que bom gosto e escolhas éticas devem andar
juntas. O que se traduz no uso sempre que possível de peças com certificado,
como a mesa de centro do designer Sergio Fahrer.
“Cabe a nós,
profissionais, mostrar aos clientes essa alternativa”, diz. “Somos formadores de
opinião e temos influência nas escolhas. É mais valoroso optar por um móvel
certificado do que ostentar uma peça de madeira rara.”
Há nove anos
trabalhando com o selo FSC, Sérgio Fahrer é ainda mais enfático nessa questão.
Ele lembra que a ONG Amigos da Terra abriu-lhe os olhos para a importância do
manejo sustentável.
“Ecologia é uma obrigação dos profissionais que
trabalham com recursos naturais. Não temos tempo a perder devastando florestas
nativas. Essa mensagem tem que ser levada à frente”, prega. “Embora as pessoas
escolham a peça pelo design, elas sempre ficam felizes em saber que não estão
contribuindo para a degradação do meio ambiente."
Fonte: http://www.oregional.com.br/detalhe_emfoco.php?codigo=1682








