Novo perfil de exportações fragiliza país
Para empresário, Brasil fica mais vulnerável a oscilações de preço e de demanda no mercado global de commodities.
A comemoração do governo federal pelo aumento do superávit comercial do país não é compartilhada pelos exportadores. Segundo a AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), neste ano o país venderá mais produtos básicos do que manufaturados ao exterior. Se a previsão se confirmar, será a primeira inversão na pauta de exportações desde 1978.
Produtos básicos são as commodities agrícolas, metálicas ou energéticas
que não passaram por processo industrial -soja, minério de ferro e
petróleo bruto, por exemplo.
A maior participação de básicos na pauta de exportações do Brasil pode
trazer problemas. O país fica exposto às oscilações do mercado
internacional das commodities, além de ser um desestímulo a
investimentos das empresas industriais, que geram mais empregos.
“A pauta de exportações está péssima. É um problema crítico porque, ao
exportar mais básicos, não temos o menor controle sobre preços e
quantidades exportadas”, disse o vice-presidente da AEB, José Augusto
de Castro.
Neste ano, de janeiro a junho, as exportações de básicos representaram
42% do total exportado pelo país. No ano passado, respondiam por 35%.
As vendas de manufaturados seguem o movimento contrário. No primeiro
semestre do ano passado, respondiam por 48% das vendas internacionais,
mas neste ano caíram para 43%. O restante das vendas é de produtos
semimanufaturados -commodities que passaram por algum processo de
beneficiamento, como ferro, óleo de soja e açúcar.
No mês passado, as vendas de manufaturados mostraram recuperação de
10%. Mesmo assim, as vendas foram menores que as de produtos básicos.
O secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento,
Welber Barral, nega “conformismo” com a piora na pauta de exportações
do país. Mas ele argumenta que o aumento das vendas de commodities ao
exterior está segurando a balança comercial. Não fosse por esses produtos, as exportações poderiam ser menores que as importações. “Também queremos exportar industrializados. Mas a demanda por manufaturados caiu no mundo todo”, disse Barral.
Francisco Pessoa, economista da consultoria LCA, lembra que o aumento
das vendas de commodities pode representar um grande risco para as
contas externas no longo prazo, se os preços caírem. Ele pondera que,
neste ano, o aumento da venda de básicos é consequência da crise e não
representa uma tendência por enquanto. “Daqui a alguns anos, o Brasil vai exportar o petróleo do pré-sal. Aí sim as exportações de básicos vão aumentar”, disse.
A explicação para a mudança na pauta comercial brasileira é regional. Neste ano, com a crise, aumentaram as vendas para a China, que importa principalmente commodities do Brasil. Caíram as vendas para os dois principais compradores de produtos industrializados: Estados Unidos e América Latina.
Castro avalia que antes da crise o governo foi descuidado com a pauta de exportações do Brasil. Ele cita que, em 2000, os manufaturados representavam 73% do total exportado para os norte-americanos. No ano passado, respondiam por 58% do total. Esse espaço foi ocupado pelo aumento na venda de commodities.
Vizinhos
Para a América Latina, a venda de manufaturados manteve a mesma
proporção durante esta década. Do total exportado para a Argentina, por
exemplo, responderam por 92% tanto em 2000 como em 2008.
O problema é que as vendas de manufaturados para a América Latina já
caíram 37% neste ano, embora os industrializados representem quase toda
a pauta da exportação brasileira para a região (90%). Os embarques do
Brasil para a América Latina caíram 38,1% neste ano. Além da crise, que reduziu a demanda de industrializados, o Brasil
enfrenta a concorrência da China. Para Barral, o governo tem estratégia
de aumentar a competitividade na América Latina para recuperar o espaço
perdido nesses mercados.
São três as ações previstas: 1) tomar medidas que agilizem as
exportações brasileiras, como a regulamentação do drawback unificado
(que amplia o benefício pelo qual as empresas importam insumos de
produtos que serão exportados, sem pagar impostos); 2) revisar acordos
de livre comércio para garantir maior acesso aos mercados; e 3) nas
reuniões bilaterais, tentar derrubar qualquer barreira comercial dos
vizinhos.
O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, lidera uma missão
comercial para a América Latina (Peru, Venezuela e Panamá) em agosto.
Fonte: http://comexleis.com.br/news/?p=3092 - Folha de São Paulo








