O desabafo de Gerdau
Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, apresentou a um grupo de empresários as linhas gerais da proposta de reforma tributária do governo.
Depois do encontro, o empresário Jorge Gerdau Johannpeter, presidente
do grupo Gerdau e da Ação Empresarial, fez um desabafo. Ele disse que,
pela primeira vez, a proposta do governo não foi preparada pela Receita
Federal. Por isso, Gerdau deu os parabéns ao ministro.
O
empresário se referia ao fato de que os argumentos do fisco sempre
predominaram nas discussões anteriores sobre o tema dentro do governo,
não apenas do atual, e refletiam as preocupações com o aspecto da
arrecadação. Desta vez, segundo ele, é diferente. ’A proposta foi feita
pelo Ministério da Fazenda e é da sociedade’, disse.
Mantega
ouviu as palavras do empresário e argumentou que a situação das contas
públicas brasileiras, em forte desequilíbrio durante anos, foi o
principal obstáculo à realização de uma reforma tributária. Não foi por
outra razão, disse, que toda vez que se falou em reforma tributária no
Brasil o resultado foi o aumento da carga dos impostos.
Para o
ministro da Fazenda, a situação atual é propícia à realização de uma
reforma tributária pois as contas públicas estão ajustadas e a economia
está em crescimento. Não haveria, portanto, necessidade de elevar as
alíquotas dos tributos ou ampliar as suas bases de cálculo. O diálogo
entre Gerdau e Mantega ocorreu durante uma entrevista coletiva na sede
da Confederação Nacional da Indústria (CNI), na última terça-feira.
É
bom lembrar que o coordenador da proposta de reforma tributária é o
secretário de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda, Bernard
Appy. Ele vem consultando os secretários estaduais de Fazenda sobre as
linhas gerais da reforma. Mas ninguém conhece ainda os detalhes da
proposta. E, como notou recentemente o governador de São Paulo, José
Serra, em matéria tributária ’o essencial está nos detalhes’.
Embora
a melhoria das contas públicas seja uma realidade, restam dúvidas sobre
a disposição efetiva do governo em conter a sua ânsia por maior
arrecadação, mesmo porque os gastos correntes não param de crescer, em
velocidade muito superior à da economia. Não é segredo para ninguém que
o governo Lula ainda não se conformou com a perda da Contribuição
Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e que estimula, nos
bastidores do Congresso Nacional, a retomada das discussões pela
recriação do imposto sobre os cheques. Essa movimentação foi reforçada
pela argumentação de alguns economistas de que a extinção da CPMF não
teria sido repassada aos preços dos produtos, ou seja, aos consumidores.
O
projeto estratégico do governo Lula parece contemplar maiores gastos
com pessoal, previdência, assistência social, saúde e educação, o que
só poderá ser feito com o aumento da carga tributária. Argumenta-se na
área técnica oficial, no entanto, que a maior arrecadação não viria da
elevação de alíquotas ou da ampliação das bases de cálculo dos
tributos, mas apenas da atuação mais eficiente do fisco. Segundo esses
técnicos, estaria ocorrendo uma diminuição gradativa da distância entre
a carga tributária nominal (ou seja, aquela definida pela legislação) e
a carga efetiva, pela redução da sonegação e da evasão fiscal. O
governo conta também com os efeitos positivos da expansão econômica
sobre a sua receita.
O tributo novo que está sendo previsto na
proposta de reforma tributária - o Imposto sobre Valor Adicionado (IVA)
federal - não deve elevar a carga tributária, pois apenas substituirá
três contribuições existentes: a Cofins (Contribuição para o
Financiamento da Seguridade Social), o PIS (Contribuição para o
Programa de Integração Social) e a Cide-combustíveis (Contribuição de
Intervenção no Domínio Econômico que incide sobre os combustíveis).
A
proposta de reforma do governo estabelece ainda um prazo de transição
até 2016 para que todas as regras entrem em vigor. Portanto, as
alterações não estão sendo feitas para este governo e nem sequer para o
próximo - o que dá razão a Gerdau.
A essência da proposta de
reforma tributária do governo é o fim de todas as contribuições
sociais, com exceção daquela que incide sobre a folha de salários e é
destinada a financiar a Previdência Social. Depois da descentralização
tributária realizada pelos constituintes de 1988, o governo federal
utilizou o instrumento das contribuições sociais para elevar sua
receita, já que elas não são partilhadas.
O problema é que as
contribuições são cumulativas e oneram a produção brasileira, que perde
competitividade ante os concorrentes. A substituição das contribuições
pelo novo IVA federal colocará um ponto final nesta questão da
cumulatividade e nesse ciclo iniciado na década de 1990. Permitirá
também que as receitas de todos os tributos federais sejam partilhadas
com Estados e municípios, uma antiga reivindicação dos governadores e
prefeitos.
As exportações e os investimentos também serão
inteiramente desonerados. Isto significa que os créditos obtidos pelos
empresários poderão ser utilizados imediatamente. Atualmente, os
créditos da Cofins e do PIS só podem ser compensados em 24 meses e os
do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), em 48
meses.
Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex/O Estado de São Paulo - 25/02/2008








