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O dólar e a economia global

A queda da moeda norte-americana reavivou o debate sobre o destino do crescimento, das taxas de juros e do déficit externo dos Estados Unidos.

"A discussão havia acalmado depois que o Banco Central dos EUA, o Fed, deixou de aumentar os juros básicos, em julho, depois de 17 altas seguidas. A próxima decisão do Fed sobre juros ocorre na semana que vem. E daí?

A história continua a mesma. Os Estados Unidos gastam mais do que podem, têm déficits públicos e externos (em conta corrente) enormes e ditos insustentáveis. O déficit externo ronda os 7% do PIB. Pela teoria padrão, tais déficits chegaram a um limite crítico. Tenderia a haver uma desvalorização do dólar, que baratearia produtos americanos e encareceria importados, com uma decorrente redução do déficit comercial e, de resto, transferência de riqueza financeira, por canais diferentes dos atuais, para os EUA.

A teoria padrão por ora parece não funcionar porque a economia mundial é enormemente afetada pela heterodoxia asiática. China e cia. manipulam o câmbio a fim de manter enormes superávits comerciais com os EUA e parte do mundo. Compram o excedente de dólares gerado pelo comércio exterior e empilham trilhões em reservas, evitando a valorização de suas moedas. Com pilhas de moeda forte, compram ativos financeiros nos EUA e financiam o déficit americano.

Esse movimento financeiro é tão gigantesco que algumas figuras algo quixotescas, como Fred Bergsten, um diretor do Institute for International Economics, sugeriu no ano passado que Estados Unidos, Europa, FMI e OMC punissem os países que continuassem a manipular o câmbio. Isto é, que aprovassem barreiras comerciais e outras sanções contra os asiáticos superexportadores e acumuladores de reservas.

Mas o fato é que o dólar vem se desvalorizando. Segundo Martin Wolf, principal analista econômico do "Financial Times", o déficit externo americano parou de crescer. O ajuste dos desequilíbrios mundiais viria de maneira gradual e segura.

Na eurolândia, os juros básicos continuam a subir. Autoridades econômicas européias acreditam que a desaceleração econômica americana não afetaria a eurolândia e vizinhos, pois o crescimento da Europa rica é ora menos dependente de exportações e da economia americana. De resto, um euro mais forte tenderia a segurar os preços, a inflação e encurtar a série de altas de juros na Europa. Desta vez, diz o chavão, se os EUA espirrarem, a Europa, e até mesmo o resto do mundo, não pegaria um resfriado. Será?

No mercado dos EUA, a queda do dólar indica que os investidores não parecem acreditar em novas altas de juros (juros mais altos tendem a fortalecer a moeda), pois a economia já andaria devagar. E o Brasil com isso? Uma correção muito rápida dos desequilíbrios pode conter o crescimento mundial. E um resfriado global nos causa pneumonia."



Por Vinícius Torres Freire

Fonte: IEA/Funcex - Folha de São Paulo

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