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O fenômeno IKEA

São numerosas as explicações para o sucesso comercial IKEA, do tipo: que o mobiliário se democratizou e IKEA corresponde ao descartável que é um pouco a imagem das nossas vidas, entregues às contingências do precário e da mobilidade; que esta nova sociedade de consumo é mutante a ponto das questões do equipamento doméstico exigirem uma mistura entre o produtor e o consumidor, aquele que usufrui o espaço doméstico tornando-o maleável, manobrando-o à luz da satisfação e da rentabilidade máxima dos metros quadrados disponíveis; que o “bom, bonito e barato” invadiu todas as esferas da nossa existência, a partir do momento em que limpamos as nossas casas, em que os móveis dos nossos familiares já não nos identificam com importantes valores matrimoniais, em que a comodidade prevalece acima dos valores estatutários, etc., etc.

Uma conceituada jornalista resolveu questionar os segredos desta marca global, o seu design, o seu marketing e preços, o que mudou nas nossas vidas com a IKEA e se esta corresponde a uma filosofia transversal do consumo de massa. O resultado é o livro “Boa IKEA!”, por Elen Lewis, Gestão plus Edições, 2009, que ajuda a compreender este gigante do mobiliário e a encará-lo como um agente de transformação social.

Primeiro, a relação de amor/ódio, o levar o carro para um parque de estacionamento, andar no meio das multidões, com ou sem catálogo na mão, seguindo um circuito emaranhado, olhando para códigos aparentemente indecifráveis, fazer escolhas e regressar horas depois ao carro com peças em flat pack (embalagens em kit para montagem) não sem ter comido um cachorro e um café a preço módico. Parece que é o amor que prevalece, senão não havia 1 milhão de clientes a visitar diariamente a IKEA em todo o mundo, a bisbilhotar milhares de produtos em 300 lojas que foram abertas num total de 35 países, em 2008. É provável que se estabeleça uma ligação íntima com uma loja que parece um supermercado monumental, com uma apresentação um pouco desmazelada, peças amarrotadas, o consumidor com plena liberdade para mexer e remexer.

Segundo, há que reconhecer, a empresa global aposta ao ilimite na melhor relação design/preço. A partir daí, podemos visionar ocupar a nossa casa com elegância sueca e quando estivermos desgostosos sabemos que podemos atirar tudo para o ecoponto. Esta concepção é plausível numa sociedade não estratificada em que o automóvel, as férias, a educação dos filhos, a compra da casa secundária, os lazeres, por exemplo, são muito mais importantes que a fixação em mobiliário robusto, correspondente à noção do passado que a casa é a imagem dos nossos valores e da nossa representação social.

Terceiro, a IKEA permanece numa tendência pesada do mercado em que comprar é um desafio, uma boa ocupação do tempo, é uma aventura em termos de se descobrir uma pechincha, é uma oportunidade para nos identificarmos com o espaço que vamos construir nas nossas próprias casas. No meio desse consumo de massas somos nós que fazemos a nossa própria história, manipulando o objecto, dando forma ao espaço, sempre referenciado por um tal estilo de vida escandinavo, preocupado com a higiene, o despojamento, simultaneamente clássico e modernista.

Quarto, a IKEA corresponde na nossa mente à empresa que pensa em nós, em termos de preço, inovação técnica, é a imagem da competitividade, da economia, da escolha de trabalhadores competentes e comprometidos, que oferece em todo o mundo a possibilidade de comprar comida sueca e fazer uma refeição a preços acessíveis. Talvez a autora tenha razão quando escreve: “O mobiliário de automontagem é mais do que apenas uma outra medida da IKEA para reduzir custos. Torna-se um instrumento de evangelização, uma cruzada que nos ensina o valor do bom, honesto e árduo trabalho sueco. É por isso que nos sentimos ligados aos nossos móveis da IKEA – o ritual liga-nos mais às peças que compramos”. A IKEA desafia as convicções e os gostos locais, é sóbria na publicidade, corresponde, em suma, ao ideal das classes médias que aceitam mobilidade, a nova versão do sonho americano e a construção da personalidade sem grandes atavismos domésticos.

A par desta análise sobre este fenômeno IKEA e como ele se implementou à escala universal e é um veículo de transformação social onde quer que chegue, Elen Lewis também investiga algo que interessa muito a marketeers, prestadores de serviços, gestores e designers: a história da marca vencedora do produto mais exportado da Suécia e o pensamento de Ingvar Kamprad, o fundador do projecto; como se gere este império do mobiliário instalado em todos os continentes e como se sedimentou o projecto glocal (imagem global de uma empresa que não transige com os valores locais e certos estereótipos suecos); em que se baseia o design nórdico, qual é a atenção que dá aos materiais inovadores, o compromisso entre o sentimento da elite e o conforto aspirado pelas massas populares; acima de tudo o que é a cultura desta empresa que funciona como um negócio de cumplicidades familiares, que não prescinde de oferecer algo diferente às classes médias.

“Boa IKEA!” contribui para o entendimento de como nós mudamos com o mobiliário e a decoração doméstica.

Fonte: http://va.vidasalternativas.eu/?p=1652

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