País precisa resolver entraves internos para exportar mais / Robson Gisoldi
Avançar na diplomacia em tempos de crise não é tarefa fácil, ainda mais quando a insegurança financeira paira de forma aguda em praticamente todos os países do mundo, sejam desenvolvidos ou não.
Por essa razão, o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), embaixador Rubens Ricupero, disse que os acordos bilaterais e multilaterais sofrerão com a crise justamente pelo protecionismo característico de turbulências como essa. Por isso, o embaixador defende que o Brasil aproveite esse momento para resolver pendências internas que fecham as portas para nossos produtos exportáveis, como por exemplo, adequar nossos itens de exportação às normas sanitárias internacionais. "Num momento de crise como o que estamos vivendo, a tendência é que os países procurem defender seus mercados. São poucos os setores que pressionam para a direção contrária, o da abertura de comércio", informa.
De acordo com o especialista, apesar das adversidades para a consolidação de novos acordos, não é o momento de esmorecer. "De maneira geral não é uma ocasião propicia para tratados, isso pela redução da demanda que faz o campo para as exportações se estreitar. Porém, isso não significa que não se possa, em algumas áreas, tentar negociar. Entretanto, ainda não vejo nenhum movimento nesse sentido no mundo", analisa o embaixador.
Para Ricupero, com a impossibilidade de mudar o cenário mundial, seria interessante o governo brasileiro resolver certos entraves internos. "Por exemplo, o setor de carnes, tanto bovina quanto suína, têm problemas específicos vinculados em medidas sanitárias que fizeram fechar certos mercados. Existe espaço para remover esses obstáculos", sugere .
O embaixador também comemora a lucratividade do setor manufaturado com a subida do câmbio, mas salienta que com a redução da demanda, ficará ainda mais importante o trabalho de promoção dos produtos. Em se tratando do Mercosul, Ricupero não acredita que a crise possa tornar o bloco mais forte. O argumento tem como base o fato das divergências internas serem sempre latentes. "Os próprios argentinos já adotaram medidas protecionistas aqui. Não vejo nenhuma tendência nítida no Mercosul de fortalecimento. Vemos o esforço do Brasil para evitar a bitributação, que mesmo com várias reuniões, não se resolve", detalha. Já em relação à Rodada de Doha, na opinião do embaixador, dificilmente sairá um acordo nesse ano. "O esforço vai continuar dependendo das flexibilidades dos países. Como o novo governo dos EUA vai encarar isso tudo. Pode ser que haja algum tipo de avanço, mas fatos não existem. Na Índia as eleições serão em maio e foram os dois países que paralisaram as negociações no ano passado. Além disso, não vi nenhuma declaração do governo americano sobre o comércio exterior, apenas pacotes de ajuda à economia", conclui.
Os países do G-20 tentaram em dezembro aprovar a Rodada de Doha, aproveitando os pontos de convergência, deixando os itens polêmicos para discussões pontuais em 2009. Porém, até mesmo essa tentativa fracassou.
Infraestrutura
A
opinião de Michel Alaby, presidente da Associação de Empresas
Brasileiras para a Integração de Mercados (Adebim), segue a mesma linha
de raciocínio. Segundo ele, a saída é buscar melhorias em campos que
estão ao alcance do País, como aperfeiçoar falhas internas. "Eu acho
que se você vai ter dificuldade lá fora você deveria buscar fazer
melhorias das condições internas para evitar novas barreiras às nossas
exportações. Infraestrutura, reforma tributária, adequar os produtos
brasileiros às normas técnicas da União Europeia e EUA, que são os
principais, buscar controles sanitários vinculados à produção e
exportação animal, aplicar a legislação internacional de meio ambiente
para conseguir vender uma imagem melhor sobre a Amazônia, ou seja,
trabalhar problemas internos", defende.
Para
o representante, por mais que o governo brasileiro acredite na
possibilidade de uma aprovação da Rodada de Doha, o caminho a ser
percorrido não será fácil em 2009. Conforme Alaby, "o ano de crise
tenderia a favorecer o acordo multilateral, porque pode abrir os
mercados e buscar mais desenvolvimento do comércio. Entretanto, outra
corrente diz que com a crise os mercados se sentem mais protecionistas,
porque tem que manter seus empregos". Segundo ele, as duas correntes
são "antíteses" de como sair da crise. "Na minha opinião, falar de Doha
nesse momento, principalmente pelos EUA estarem com um novo governo, é
muito cedo. Muito difícil qualquer avanço".
Michel Alaby acrescenta que nem mesmo os acordos bilaterais terão força nesse ano, fruto não só da crise econômica como também da dificuldade de consenso entre os países do Mercosul. "Nos acordos bilaterais segue o mesmo raciocínio. Se não conseguimos avançar nem com Mercosul, imagine com a União Europeia. Esse ano está bastante complicado para esses tratados", conclui.
Fonte: http://www.global21.com.br/ - DCI








