Preservar o livre comércio
Talvez cause estranheza a classificação do Brasil como um dos países mais fechados do mundo para o comércio internacional feita pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), num estudo que examina até que ponto os países estão preparados para promover o comércio exterior e onde precisam avançar.
Afinal, a abertura da economia brasileira à competição
internacional, iniciada nos últimos anos da década de 1980 e
intensificada no começo da década seguinte, permitiu o extraordinário
desenvolvimento do comércio exterior do País.
Os números são
expressivos. Entre 1988 e 2008, enquanto as exportações brasileiras
passaram de US$ 33,8 bilhões para US$ 197,9 bilhões (aumento de 485%),
as importações saltaram de US$ 14,6 bilhões para US$ 173,2 bilhões
(aumento de 1.086%). Mas, a despeito desse avanço notável, o Brasil
está muito mal classificado entre os 121 países analisados pelo WEF em
seu recém-lançado Relatório Global da Viabilidade do Comércio. Ocupa
apenas a 87ª posição, de acordo com o Índice de Viabilidade Comercial
elaborado pela instituição.
O Brasil está na frente de países
latino-americanos cujos governos adotaram políticas que inibem ou
afugentam o investimento privado e o comércio externo, como Bolívia,
Argentina, Equador e Venezuela. Mas está atrás de outros, como o Chile
(19ª posição) e a Costa Rica (43ª). Entre os Brics, o Brasil só não é
superado pela Rússia.
Apesar da abertura observada nos últimos
anos, o nível de proteção no Brasil continua relativamente elevado, em
particular para os produtos agrícolas, observou o WEF. Além disso, é
ruim a classificação do País na maioria dos itens que compõem o Índice
de Viabilidade Comercial, entre eles as regras para a circulação de
bens e serviços pela fronteira, o sistema de controle alfandegário, a
disponibilidade e a qualidade da infraestrutura de transportes e
comunicações e o ambiente institucional para a realização de negócios.
Pesaram
contra o Brasil as barreiras tarifárias, os altos custos alfandegários,
a má qualidade das estradas, a corrupção e a ineficiência do governo.
Em alguns itens, como rede de telecomunicações (telefonia móvel,
disponibilidade de internet de banda larga, entre outros serviços),
serviços relacionados a embarque de mercadorias e competência
logística, o País obteve boa classificação.
O estudo destina-se
a identificar, em cada um dos países analisados, onde estão os
principais obstáculos para o desenvolvimento do comércio internacional
e, como observaram seus autores, está sendo divulgado num momento
marcante para a economia mundial.
O comércio internacional
desempenhou, até recentemente, papel muito importante na disseminação
do progresso e na redução da pobreza no mundo, graças às medidas
adotadas por muitos países para facilitar sua expansão. Pode ser o
caminho para a saída da crise mundial, mas o que se tem observado nos
últimos meses é a adoção, por diversos governos, de medidas que tendem
a reduzir o fluxo de bens e serviços entre os países e, assim, podem
prolongar a crise.
Com a crescente utilização do dinheiro
público (para socorrer alguns segmentos da economia ou para estimular a
atividade econômica), fica mais difícil agir de forma não
discriminatória em relação às empresas e aos produtos estrangeiros, diz
o estudo. Brasil, França e EUA estão citados entre os países que
distribuíram empréstimos generosos para setores da economia. A Índia
passou a exigir licença para a importação de determinados produtos e a
Argentina fixou limites para a importação de peças.
Embora
considere improvável que os países reajam como os EUA em 1930, quando
elevaram as tarifas de importação em quase 50%, o WEF considera que o
quadro atual pode criar riscos para o sistema de livre comércio. Há um
considerável espaço para aumentar a proteção sem tecnicamente quebrar
as regras da Organização Mundial do Comércio ou violar os acordos
internacionais, destacou.
O relatório do WEF tem o objetivo de
apontar para os governantes os obstáculos ao avanço do comércio
internacional que ainda não conseguiram eliminar ou que estão criando a
pretexto de enfrentar a crise.
Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex/O Estado de São Paulo








