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Queda dos juros não repassada

Na economia brasileira é preciso levar em conta a importância das vendas a prestações que, segundo a propaganda das lojas, representariam, na maior parte dos casos, um crédito sem juros com prazos médios de três meses a um ano.

"Com o alto custo do dinheiro que se pratica aqui, o anúncio de “sem juros” é pura lorota, pois o comércio varejista inclui nos seus preços, inclusive para vendas à vista, os juros que paga para financiá-las.

Cada estabelecimento comercial escolhe o tipo de operação financeira de sua preferência para se financiar, mas, considerando o volume de crédito das operações com pessoas jurídicas, tudo indica que, na maior parte, são empréstimos para capital de giro (que em um ano acusaram crescimento de 16,7%).

Essas operações, em outubro, pagavam juro de 31,5% ao ano, que, embora tenha caído 3,2% em 12 meses, ainda é muito elevado numa economia que deve fechar o ano com inflação em torno de 3,5%.

A pergunta natural que cabe fazer é quem se aproveitou dessa redução da taxa de juro paga pelo comércio, partindo do princípio que esse custo é transferido para o preço à vista, a fim de criar a ilusão de que a venda a prestações está sendo feita “sem juros”.

Tem-se a impressão de que o comércio varejista se apropriou daquela queda do custo do dinheiro, pois o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) acusou, nos dez primeiros meses do ano, aumento de 2,33%, com queda importante apenas no caso de aparelhos eletrônicos (4,7%) em razão das importações, enquanto em calçados e vestuário o aumento de preços variou entre 3,3% e 4,09%.

Com a redução dos juros pagos, o varejo aumentou, portanto, sua margem de lucro, a menos que tenha destinado essa redução de custo financeiro para cobertura de inadimplências, sabendo-se, todavia, que, de modo geral, com o grande aumento do uso dos cartões de crédito, o comércio varejista transferiu esse risco para os administradores dos cartões.

É provável também que o benefício decorrente da redução do juro tenha sido, em parte, transferido para a extensão do prazo de financiamento oferecido aos compradores. Mas isso redunda na ampliação do endividamento das famílias, que, a prazo médio, pode resultar no inconveniente de uma queda violenta da demanda interna. Faria melhor, o comércio, reduzindo preços e não aumentando os prazos das suas vendas."


Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex / O Estado de São Paulo - 29/11/2006

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