'Real forte cria oportunidades lá fora'
O crescimento da renda e do consumo das famílias, motor do crescimento de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2007, e o movimento de internacionalização das empresas são os dois grandes trunfos do Brasil para enfrentar a crise financeira no mercado internacional.
A avaliação
é de Luiz Fernando Furlan, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio Exterior, que ocupou a pasta de 2003 a 2007 e foi responsável
por promover um salto nas exportações.
Segundo Furlan, o País
não está imune à crise internacional, mas vai resistir. "O Brasil terá
reflexos sim, mas não serão reflexos dramáticos."
Em "processo
de desintoxicação" de sua saída do governo - ocorrida há um ano -, o
ex-ministro se dedica a promover o desenvolvimento sustentável na
Amazônia, como presidente do Conselho de Administração da ONG Amazonas
Sustentável. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O Brasil vai permanecer imune à crise internacional?
A
resposta é muito simples: ninguém sabe. Mas há circunstâncias
atenuantes, e o Brasil pode passar pela crise sem pegar uma pneumonia.
Isso por causa do motor do crescimento do PIB, o aumento da renda e do
consumo das famílias. Meu otimismo em relação ao Brasil é que as
empresas estão investindo, empregando gente, com planos para o futuro.
Só precisamos assegurar uma velocidade maior, uma velocidade de
cruzeiro. Se alguém dissesse que um grande banco nova-iorquino ia
quebrar e ser vendido por um centésimo do seu valor, ninguém
acreditaria. Da mesma forma, ninguém acreditaria que uma mineradora
brasileira galgaria posições no mercado internacional e compraria
rivais mundo afora. O real forte está criando oportunidades lá fora.
Vamos ter empresas brasileiras com ativos e valor de mercado
equivalentes ao PIB brasileiro. Hoje o valor de mercado das empresas
listadas na Bovespa é quase o valor do PIB.
O real tende a se manter valorizado?
O
cenário que vejo é que a moeda brasileira vai continuar no patamar
atual. O Banco Central não vai mexer na taxa de juros, nos próximos
meses, nem para cima, nem para baixo. O cenário tende a se manter
estável. Não temo a valorização da moeda brasileira.
E como ficam as exportações brasileiras, com o dólar cada vez mais desvalorizado?
Temos
um grande trunfo, que é o movimento de empresas brasileiras investindo
em operações no exterior. Isso funciona como uma certa compensação para
a entrada de dólares no País. No ano passado as empresas brasileiras
investiram US$ 30 bilhões no exterior, em projetos de
internacionalização, e isso vai continuar. Creio que a própria crise
nos mercados pode depreciar ativos no exterior e criar novas
oportunidades de negócios para as empresas brasileiras.
Hoje
os produtos primários respondem por 28,1% das exportações brasileiras.
O agravamento da crise americana vai afetar as exportações de
commodities?
Continuo vendo com moderado otimismo a
posição brasileira hoje. Isso porque o principal destino das
exportações não é o mercado americano, que responde por cerca de 15%
das nossas vendas ao exterior. O principal destino das commodities
brasileiras é hoje a China. Então vamos ficar atentos ao que acontece
com a China, que tem um mercado interno muito dinâmico.
A crise pode levar a um colapso no valor das commodities, a partir da queda no consumo de países como EUA e China?
Não
acredito em um colapso no preço das commodities. Certamente haverá
acomodação dos preços, mas em patamares atraentes, reflexo do aumento
ocorrido nos últimos 12 meses. O petróleo não vai voltar a custar US$
30 o barril, a tonelada de soja não vai ser negociada a menos de US$
200.
O crescimento de 5,4% do PIB em 2007 torna o País mais resistente às crises internacionais?
O
Brasil não vai ficar isolado da crise. Esse é o momento, em que o País
está crescendo, de fazer ajustes. Com investimentos em infra-estrutura
e redução do ônus ao investidor, cresceremos mais. É possível crescer
de 6% a 7% ao ano, desde que haja "desgargalamento" em infra-estrutura
e custos. Em 2006, quando ainda estava no governo, a previsão era de
que o Brasil cresceria 3%. Em 2007, crescemos 5,4%. A prática mostra
que foi possível aumentar as exportações. Em cinco anos, elas cresceram
de US$ 60 bilhões para US$ 160,6 bilhões, um novo recorde no ano
passado. Em cinco anos, ganhamos 30% de participação no comércio
mundial.
Então a desoneração fiscal seria um dos caminhos para um crescimento a taxas sustentáveis.
Foram
minimizados entraves externos (dívida com o FMI, falta de reservas).
Hoje temos uma moeda forte, que até os especuladores americanos estão
preferindo. Os bancos brasileiros parecem mais seguros do que grandes
instituições internacionais. Não há mais nenhum entrave internacional,
é só questão de mobilização dos brasileiros. Agora, a economia informal
é um câncer. Quem paga imposto sustenta a carga para compensar quem
sonega. O Brasil é o único país em que se paga imposto antes de começar
a produzir.
Quem é:
Luiz Fernando Furlan
Ex-presidente do conselho de administração do Grupo Sadia, do qual é acionista
Ex-ministro do Desenvolvimento, é o atual presidente da ONG Amazônia Sustentável
Fonte: Sistema de Informações IEA/Funcex/O Estado de São Paulo








