Salário em segundo plano
Pesquisa revela que a maioria dos executivos já disse não a uma proposta para ganhar mais porque o convite partiu de uma empresa sem preocupação com a sustentabilidade
Um salário gordo pode ser a única chance de conquistar uma casa confortável, ter um carro novo e poder viajar para o exterior com a família todos os anos.Mas há duas maneiras de conseguir isso. Uma é realizar esses desejos como conseqüência natural de muito trabalho e reconhecimento profissional. A outra é alcançar essas metas após uma busca desenfreada por remunerações cada vez maiores. Ou seja, topar todo tipo de proposta de trabalho, levando em conta apenas os aumentos salariais envolvidos em cada mudança de emprego. Esse comportamento tem sido cada vez mais rechaçado pela maioria dos executivos. É o que aponta o resultado da pesquisa de remuneração da Quorum Brasil, exclusiva para VOCÊ S/A: seis em cada dez executivos entrevistados, de um total de 100, já receberam uma oferta de salário tentadora, mas declinaram. Por quê? Eles acreditam que vale mais a pena priorizar os valores da empresa em que trabalham.
OPÇÃO POR VALORES
Esse tipo de ponderação foi o
que levou a gerente de planejamento de sistemas Katia Palma de Jesus,
de 36 anos, a decidir por uma das três ofertas de trabalho recebidas há
um ano. Funcionária do BankBoston durante 11 anos, Katia foi
surpreendida com o anúncio da venda do banco para o Itaú. Sem saber
direito como seria a união das duas companhias e se permaneceria no
banco,Katia passou a ouvir propostas de outras empresas. As incertezas
nesses momentos de aquisição costumam levar a uma movimentação de
headhunters e profissionais de recursos humanos que aproveitam para
assediar os empregados da empresa que está sendo comprada, no caso, o
BankBoston. Na época, Katia estava insegura quanto ao seu futuro
profissional e achou que não era hora de recusar os convites que estava
recebendo. Durante algumas semanas, ela passou por uma série de
entrevistas de emprego e foi aprovada em duas ofertas. Uma das
propostas era para trabalhar em uma consultoria. "Além de o salário ser
muito bom, havia a possibilidade de desenvolver projetos fora do país",
explica.Mas Katia optou por ficar no Itaú, que se configurou como uma
terceira opção. "Aos poucos, depois de algumas palestras de
apresentação, entendi como o banco está inserido na sociedade", afirma.
"A partir daí, reconheci na empresa valores nos quais eu também
acredito", diz Katia.
Ultimamente, não só o profissional tem buscado companhias preocupadas com questões de sustentabilidade. As empresas também querem contratar funcionários preparados para lidar com esses temas. "Queremos que os nossos profissionais estejam em linha com a estratégia econômica, social e ambiental do banco", diz Valéria Veiga Riccomini, superintendente de atração e integração de pessoas do Itaú. E as empresas têm utilizado diversos mecanismos para atrair a atenção dos funcionários para essas questões. Em meados de maio, o Itaú organizou um evento com Al Gore, ex vice- presidente dos Estados Unidos, para discutir os problemas relacionados ao meio ambiente. A palestra foi gravada em vídeo e cópias já começaram a ser exibidas para todos os funcionários dos centros administrativos do banco.
Estar envolvido em atividades como essas nas empresas ou fora delas conta pontos na carreira de um profissional. "É fundamental que um executivo analise as questões que vão além de um bom salário, como é o caso das práticas de sustentabilidade que algumas companhias já adotaram", diz a headhunter Roberta Giuliano, sócia da Passarelli Consultores, de São Paulo. Por isso, ao fazer o planejamento de sua carreira, é importante perceber que recusar uma oferta polpuda de salário não significa perder a chance de ascensão profissional. "Até mesmo os profissionais bem jovens, mais interessados em reconhecimento e em dinheiro no curto prazo, devem ponderar se não compensa recusar uma oferta e ficar numa empresa que tenha credibilidade e siga valores sustentáveis", afirma Roberta.
Muitos profissionais já agem desta forma e analisam diversos outros fatores antes de mudar de trabalho. A pesquisa da Quorum Brasil mostrou que, quando recebem uma nova proposta de trabalho, os executivos consideram a perspectiva de crescimento na outra empresa, avaliam a confiança que têm no grupo em que trabalham e pensam se vale realmente a pena mudar, analisam também a diferença nos benefícios e, por uma questão ética, preferem não trabalhar em empresas que sejam concorrentes do atual empregador.
ACREDITAR NA EMPRESA
A lógica por trás disso
tudo é a mudança de foco da carreira, que antes estava no curto prazo e
agora passou para o longo prazo. Além disso, é mais fácil e prazeroso
trabalhar numa organização em que você acredita. A Unilever, por
exemplo, é uma das companhias preocupadas em fortalecer os princípios
da sustentabilidade. Ela mantém alguns programas específicos em que os
gerentes são convidados a participar de seminários sobre códigos de
princípios e sustentabilidade. "O funcionário nos reconhece como uma
empresa preocupada com as questões ambientais. Isso nos ajuda a reter
os melhores talentos", diz Luiz Carlos Dutra, vice-presidente de
assuntos corporativos da Unilever.
Outra empresa engajada com o tema é o ABN Amro Real, uma das primeiras instituições do setor financeiro a associar seus produtos com as questões ambientais. A instituição tem diversos programas que são usados para priorizar o bem-estar do funcionário, aumentar os cuidados com o meio ambiente e manter as boas práticas de governança corporativa. O resultado dessas ações tem sido tão positivo que a instituição brasileira é uma das mais rentáveis entre todas as unidades do grupo holandês. Agora, o banco prepara-se para expandir sua rede no país e tem como foco principal abrir agências consideradas ecológicas. "Esse tipo de prática já mostrou que dá retorno ao acionista, ao funcionário e à sociedade", diz Paulo Naliato, superintendente executivo de RH do banco. A preocupação com a sustentabilidade é uma tendência que veio para ficar e deve envolver cada vez mais ações conjuntas de funcionários e das empresas.
Por Paula Pavon








