Sobre a Rodada de Doha
"Desastre, naufrágio, fracasso, fiasco, frustração. Estas foram algumas das expressões usadas pelo noticiário de ontem para designar o que aconteceu neste final de semana com a Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC)."
"Após
cinco anos de intermináveis discussões, as negociações foram suspensas
em Genebra por absoluta impossibilidade de progresso. Mas isso ainda
não significa que o acordo seja impossível. Significa apenas que a
situação tem de piorar muito para que as negociações multilaterais
sejam retomadas.
Para quem conhece essas coisas por ouvir falar,
vamos às origens. A OMC tem sede em Genebra (Suíça). É a instituição
que nasceu das ruínas da 2ª Guerra. De 1947 até 1995, levava a sigla
GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio), organismo criado com o
objetivo de pôr ordem no caos do comércio mundial. De 1986 a 1993, foi
negociada a Rodada Uruguai (batizada assim porque começou em Punta del
Este, Uruguai), que deu mais alguns passos na direção da liberação do
comércio mundial e transformou o GATT em OMC.
A Rodada Doha foi
lançada em dezembro de 2001 para avançar na liberação do comércio de
produtos agrícolas, que se manteve retrancado. O principal objetivo foi
discutir o fim dos subsídios à agricultura (dinheiro público despejado
na produção, distribuição e vendas) pelos governos dos países ricos. O
subsídio é condenado porque distorce os preços e faz concorrência
predatória aos países mais pobres. O cálculo mais repetido é o de que
esses subsídios correspondem a US$ 1 bilhão por dia.
A novidade
da Rodada Doha foi a melhor organização dos países agrícolas em
desenvolvimento. Foi em 2003, no encontro da OMC em Cancún (México),
que o Grupo dos 20 (do qual participam China, Índia, África do Sul e
Brasil) enfrentou o jogo duro dos países ricos. Até então, Estados
Unidos e União Européia conchavavam nos chamados salões verdes (green
rooms) e se limitavam a exigir o voto submisso dos demais para o que
haviam decidido.
Do ponto de vista técnico, a principal razão
pela qual não dá mais para prosseguir negociando é o vencimento do fast
track (caminho curto), que agora leva o nome de Autoridade de Promoção
Comercial (TPA, na sigla em inglês). Esse fast track entra na história
porque a política de comércio exterior dos Estados Unidos é determinada
pelo Congresso. Para que o governo americano possa negociar tratados
comerciais sem que depois os textos sejam emendados pelos políticos, o
Congresso passa uma autorização prévia. O prazo da TPA atual vence em
junho de 2007. Não há mais tempo físico para que um novo tratado seja
aprovado por 150 países membros da OMC antes do vencimento dessa
autorização.
A suspensão das negociações da Rodada Doha é um
revés de alto custo para o governo Lula. Ele havia despejado todas as
suas fichas nessas discussões e, enquanto se realizavam, congelou
outros projetos de acordos comerciais, especialmente o da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) e o acordo Mercosul e União Européia.
Há
cerca de 300 acordos comerciais bilaterais aprovados ou em negociação.
Isso significa que os países tratam de garantir mercado externo para
seus produtos por meio de negociações em paralelo. Cada acordo desses
tira um pedaço do mercado brasileiro porque define preferências
comerciais só entre os signatários. De repente o calçadista ou o
produtor de móveis do Brasil não consegue mais colocar seu produto lá
fora porque um acordo qualquer definiu que um tradicional cliente
brasileiro deve dar preferências comerciais a outro país. O calçadista
brasileiro ou o produtor de móveis dirão que precisam de mais câmbio
para continuar exportando quando, na verdade, o problema não foi a
queda do dólar no câmbio interno; foi o concorrente que passou a perna
nele.
A isso se chama “desvio de comércio”. Este não é o único
estrago que acontece em conseqüência desses acordos em paralelo. Sem
acesso firme aos mercados, os investimentos vão para países mais
promissores.
A falta de acordos multilaterais e a existência
desses tratados em paralelo produzem uma barafunda de regras no
comércio mundial. O economista indiano, Jagdish Bhagwati, chamou isso
de tigela de espaguete (spaguetti bowl).
O governo brasileiro terá agora de tirar o atraso com acordos bilaterais e tratar de meter o próprio macarrão nessa tigela."
Por Celso Ming - O Estado de São Paulo
Fonte: http://web.iea.com.br/funcex - 26/7/2006








