A modernização do emprego
Durante muito tempo predominou a crença de que a inserção competitiva do Brasil na economia mundial, por meio da abertura, do aumento das exportações e da modernização tecnológica, é essencial para assegurar o crescimento, mas implica a gradual redução da mão-de-obra empregada nos setores mais avançados.
Disseminada
na década passada e aparentemente consolidada nesta, essa crença é
agora desmentida pela realidade. Na primeira metade desta década, as
empresas exportadoras e as que investem em inovação tecnológica foram
as que mais abriram postos de trabalho.
Esta é uma das
conclusões mais estimulantes da extensa pesquisa feita pelo Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e que resultou no livro Brasil: o
estado de uma nação, que acaba de ser lançado. É o segundo livro da
série e tem como tema "mercado de trabalho, emprego e informalidade".
Outra
de suas conclusões é menos animadora. A informalidade - que diminui a
produtividade da economia, reduz a arrecadação das contribuições
previdenciárias e de outros tributos, oferece remuneração mais baixa e
deixa o trabalhador desprotegido - tornou-se um problema estrutural da
economia brasileira. Ao contrário do que ocorria até o início da década
passada, a informalidade cresce mesmo quando se expande o mercado de
trabalho formal.
Entre 2000 e 2004, as empresas que exportam com
regularidade e as mais dinâmicas do ponto de vista tecnológico criaram
932.508 empregos com registro em carteira e protegidos pela legislação.
Esse número representa 18,6% de todos os postos de trabalho abertos no
País nesse período.
Nesses cinco anos, as empresas exportadoras
contrataram liquidamente 443.892 trabalhadores, o que representou
aumento de 17,1% no número de empregados. Já as inovadoras abriram
488.416 postos de trabalho, com o que o pessoal empregado aumentou
24,7%.
São essas empresas que oferecem remuneração melhor. Os
salários pagos pelas inovadoras são, em média, 12% maiores do que os
demais setores; as exportadoras pagam em média 24,7% mais do que as que
não exportam. Além de pagar melhores salários, essas empresas são as
que concedem mais benefícios extra-salariais.
Esses números
mostram que inovar, tanto em termos de sistemas de produção como de
produtos, ganhar competitividade e conquistar espaços no mercado
externo não apenas estimulam o crescimento, como se tornaram fatores
essenciais para a melhora do mercado de trabalho.
"Impulsionar
as exportações e o investimento em inovação é um caminho natural para a
geração de empregos no País, mais qualificados e melhor remunerados",
razão pela qual o Brasil precisa persistir nesse caminho "para não
perder o bonde da história", diz o presidente do Ipea, Luís Henrique
Proença.
Já o mercado de trabalho informal, sem registro em
carteira e sem garantias para o trabalhador, parece ter-se tornado
imune às oscilações da economia. Tornou-se, como diz o Ipea,
estrutural. A informalidade mantém-se, há anos, em torno de 51% ou 52%
do mercado de trabalho. Conhecer as causas dessa resistência é
essencial para combatê-la.
A causa básica, segundo o Ipea, é o
conflito entre as regras trabalhistas consolidadas na Constituição de
1988 e as mudanças econômicas, como a abertura, a estabilização, o
aumento da carga tributária e a ocorrência de choques externos. Diante
das dificuldades, ou as empresas deixam de contratar, o que faz crescer
o desemprego, ou contratam sem observar a legislação, aumentando a
informalidade.
A solução é conhecida. Tornar mais flexível a
legislação trabalhista, dando às empresas maior agilidade para se
adaptar às mudanças econômicas, e reduzir os custos da contratação
formal, que cresceram muito. Em 1986, segundo o Ipea, custos que
incidem sobre a folha de pagamentos, como Previdência Social, Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço e o Sistema S (Sesi, Senai, Senac, Sebrae,
Sest/Senat), representavam 43% do total dos custos. Em 1995, haviam
saltado para 57%.
A mudança das regras trabalhistas é necessária
para estimular os investimentos, gerar mais e melhores empregos e
tornar mais competitivas as empresas brasileiras.
Fonte: O estado de São Paulo - Editorial








