Indústria começa a sentir efeitos da crise
O parque industrial brasileiro já começa a sentir o baque da crise internacional. Dados levantados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) a pedido do Grupo Estado mostram que alguns setores tiveram redução expressiva da utilização da capacidade instalada.
Muitos
deles estavam aproveitando ao máximo suas instalações e ocupando seu
pessoal em três turnos de trabalho. Mas agora baixaram o ritmo de
produção e há folga na linha de montagem. O tombo foi maior para quem
fabrica móveis, têxteis, químicos e para a indústria mecânica.
Em geral, a indústria sofreu redução de 0,7 ponto porcentual de julho
para outubro no uso da capacidade instalada, passando a 85,1%. O que
mais impressiona na estatística é a rapidez da mudança. Em julho, o
nível de capacidade havia atingido a maior marca da série histórica,
iniciada em abril de 1995. A preocupação era com a inflação, provocada
pela falta de condições da indústria de atender toda a demanda. Uma
pesquisa da própria FGV indicava que 45% das empresas queriam elevar
preços.
"Até meados deste ano, a preocupação era outra: questionava-se a
capacidade da indústria em atender a demanda. Em poucos meses, o
cenário mudou", diz Aloísio Campello, coordenador de sondagens
conjunturais da FGV. Agora, a preocupação é em impedir uma queda maior
na produção.
Entre as categorias mais afetadas pela queda no uso da capacidade
instalada está a de bens intermediários, que processa matérias-primas.
O setor apresentou um recuo de 2,1 pontos porcentuais no uso de sua
capacidade instalada, para 85,4%. Os fabricantes de máquinas e
equipamentos (bens de capital) perderam 1 ponto porcentual, para 88,1%.
O único indicador positivo foi o dos fabricantes de bens de consumo,
com aumento de 85% para 86,2%.
A maior retração ocorreu entre os fabricantes de móveis. Em julho, eles
usavam 85,7% da capacidade instalada; em outubro, 76,9%. O
desaquecimento da economia americana é um dos fatores que levaram à
queda. "Em julho, quando perguntados como estava a demanda externa, 41%
disseram que estava forte. Em outubro, esse porcentual caiu para zero",
diz Campello.
Como metade das exportações são para os EUA, desde o início do ano o
setor já sofria os efeitos da crise das hipotecas. Em junho e julho, as
fábricas deram férias coletivas, diz o presidente da associação dos
fabricantes de móveis (Abimóveis), José Luiz Dias Fernandez.
Química - A indústria química também sentiu a mão pesada da crise. De
julho para outubro, o uso da capacidade recuou de 85,3% para 81,6%. A
maior empresa do setor petroquímico, a Braskem, cortou em 6% sua
produção. A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) diz
que ainda não dispõe de dados de outubro e os números de setembro estão
contaminados pela parada programada da Quattor.
"Com os dados que temos, fica difícil expurgar o que é efeito de parada
e o que é crise. A sensação é que há retração da demanda", diz Fátima
Coviello, gerente de economia da Abiquim. A palavra de ordem é queimar
estoques. Novas encomendas só quando necessário.
Montadoras - As montadoras de automóveis vão usar este ano 85% da
capacidade instalada. Em outubro, as vendas recuaram 11% em relação a
setembro. Na comparação com outubro de 2007 a queda foi de 2,1%. Fiat,
Ford, GM e Volks reduziram produção. "O mercado se retraiu por causa da
contração do crédito. Isso levou a uma necessidade de férias coletivas
para ajustar estoques em relação à demanda", diz o presidente da
associação das montadoras (Anfavea), Jackson Schneider.
Três montadoras de motocicletas pararam no mês passado. Segundo a
associação das fabricantes, a Abraciclo, foram paralisações parciais.
"Foi uma parada estratégica. A partir de janeiro a produção já deve
estar na nova fase de controle de poluição por veículo", diz o diretor
executivo da Abraciclo, Moacyr Paes.
A indústria têxtil sofreu uma rápida mudança de direção. Em janeiro, o
uso da capacidade estava em 84,8%, passando para 87,7% em abril e 89,2%
em julho. Em outubro, o nível voltou para 86,1% O superintendente da
Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit),
Fernando Pimentel, diz que houve um "forte descompasso" provocado pela
volatilidade do dólar.
Enquanto as vendas de roupas e de calçados cresceram 11% de janeiro a
setembro, a produção têxtil no Brasil só aumentou 1%. As importações de
insumos cresceram 25%. "Houve uma abundância de importações de fios e
matérias-primas que afetou o setor têxtil."
Fonte: <http://jc.uol.com.br>








