Indústria livra-se do "apagão do mistério"
Empresas que usam muita energia elétrica conseguiram evitar perdas de produção com o apagão que atingiu 18 estados na madrugada de ontem. Companhias do porte da Suzano Papel e Celulose, Usiminas, Alcoa e Ibema usaram como arma antiapagão a energia própria, que lhes custou altos investimentos, para driblar o problema e não contabilizaram perdas, apesar do susto.
No entanto, as indústrias se queixam da demora para o restabelecimento do fornecimento de energia.
No setor de papel e celulose, a Suzano teve problemas na unidade na cidade que tem seu nome, na Grande São Paulo, a única que ainda não é autossuficiente em energia. No entanto, o impacto foi mínimo, já que o gerador suportou a demanda por algumas horas. A geração interna de energia é feita através da queima do licor negro - resíduo oriundo do cozimento da madeira - garante 97% da energia consumida em Mucuri e 63% na unidade de Suzano.
Além disso, a empresa possui participação de 17,9% na Usina Hidrelétrica Amador Aguiar.
Com ambos os processos, a Suzano produz praticamente 100% da energia elétrica consumida em suas unidades industriais de Mucuri (BA), Suzano, Rio Verde e Embu (SP).
A Ibema Companhia Brasileira de Papel também informou que não teve nenhum problema durante o apagão. Segundo nota da empresa, na unidade de Turvo (PR), onde se produz o papel cartão, a Ibema produz sua energia consumida, através dos recursos hídricos e da topografia da região. São duas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH), interligadas ao sistema nacional, que geram juntas 11 MW, equivalente ao consumo de uma cidade de 120 mil habitantes.
Metais
A Alcoa, uma das líderes mundiais na produção de alumínio, informou que, apesar de ter sofrido o corte de energia por um curto período, não houve "nenhum impacto na produção". A companhia é uma das empresas que, a partir dos anos 90, passaram a investir em geração e transmissão de energia.
Com sua participação nos consórcios das usinas hidrelétricas, como Barra Grande e Machadinho, localizados na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, a Alcoa garante 38% em auto-suficiência energética para suas operações. Já o contrato com a Eletronorte, na região amazônica, garantirá o abastecimento da Alumar, no Maranhão, até 2024. A empresa possui ainda participação nos consórcios das hidroelétricas de Estreito, na divisa do Tocantins e Maranhão, e da Serra do Facão, entre os estados de Goiás e Minas Gerais, que estão em construção. Tais investimentos totalizam US$ 1,1 bilhão.
A Usiminas relatou pequenos impactos em suas unidades. Segundo comunicado, "os equipamentos da Usina de Ipatinga (MG) sofreram variações de freqüência e tensão", mas voltaram a operar normalmente. Na Usina de Cubatão (SP), "houve falta de energia por cerca de duas horas, afetando a aciaria". A Gerdau também encaminhou nota informando que, "apesar da interrupção temporária das atividades de suas unidades na Região Sudeste, suas plantas estão operando normalmente e os clientes seguem plenamente atendidos".
Questão política
"Nenhum sistema está livre de acidentes. O que não poder ocorrer é demorar tanto para restabelecer a normalidade", reclama Ricardo Lima, presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace).
Segundo ele, a indústria tem feito grandes investimentos para reduzir a dependência energética. "Atualmente, 8% de toda energia consumida no País é oriunda de autoprodução e co-geração nas indústrias", revela. "Isso corresponde a 30% da energia dos grandes consumidores."
Apesar do índice significativo, Lima acredita que essa participação poderia ser maior se houve uma legislação que favorecesse os processos de autoprodução e co-geração. "Com incentivos, uma indústria poderia fornecer energia dentro de um polo industrial", explica. No entanto, isso faria as distribuidoras concessionárias perderam alguns clientes. "É uma questão política."
Fonte: DCI - Comércio, Indústria e Serviços (13/11/2009)








