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Inovação e empreendedorismo

Às vezes, o ineditismo não está nem no produto nem no serviço, mas na maneira de se fazer algo


Ultimamente tem se falado muito sobre empreendedorismo. A revista The Economist de 14/3/09, por exemplo, traz um suplemento de 17 páginas sobre este assunto. O que exatamente quer dizer esta palavra, e por que o movimento que ela descreve passou a ter muito mais importância do que no passado e, além disso, ter amplitude global?

"Empreendedorismo" é a tradução do inglês entrepreneurship, que é a qualidade de empreender. Simplificando: aquele que tem uma ideia nova sobre um produto ou serviço e a concretiza na forma de um negócio é um empreendedor. Deu-se o nome de "empreendedorismo" ao movimento espontâneo e não coordenado de pessoas que procuram concretizar e viabilizar suas ideias inovadoras. Empreendimentos neste sentido sempre existiram, mas nos últimos 10 anos têm tomado uma dimensão muito grande.

A abertura de uma padaria na esquina é um empreendimento, mas não se qualifica no sentido que estamos usando: é necessário que haja inovação no negócio, seja ele produto ou serviço. Por conta disso, há mais riscos, pois se está aventurando por caminhos não testados anteriormente. Claro que o grau de inovação e de risco pode variar muito. Colocar um espelho diferente na padaria definitivamente não se qualifica como inovação. Mas uma padaria que oferecesse também serviços de cabeleireiro certamente carregaria inovação. E imenso risco de fracasso também!

Às vezes, o ineditismo não está nem no produto nem no serviço, mas na maneira de fazer. O americano Herb Keller, que fundou a Southwest Airlines há 37 anos, teve a seguinte ideia sobre a operação de uma companhia aérea: ela seria diferente por oferecer passagens baratas, eliminando serviços desnecessários e utilizando aeroportos não congestionados. Hoje a Southwest serve 64 cidades grandes dos EUA e mais de 104 milhões de passageiros por ano. E tem sido a empresa aérea com o menor índice de reclamações por passageiro embarcado.

A ideia de iniciar um negócio inédito está associada a risco. De onde vem o capital para viabilizar o negócio na sua fase inicial? Para empreendimentos em alta tecnologia ou biotecnologia a necessidade de capital é enorme e geralmente suprida por fundos de venture capital. Mas para a vasta maioria dos negócios iniciantes (start-ups) não há venture capital investido. Nestes casos, o capital vem por endividamento dos idealizadores ou de "amigos, bobos e família", o que em inglês se chama "three 'f's: friends, fools and families" . Os criadores do Google fundaram a empresa sem nenhum dinheiro e a lançaram com US$ 1 milhão, conseguido de amigos e conhecidos.

Peter Drucker afirma que inovação é o instrumento específico do empreendedorismo e que empreendedor é aquele que "perturba e desorganiza".

A palavra empreendedor não se aplica somente, ainda que mais frequentemente, a negócios iniciantes e pequenos. Por exemplo, a Nokia era uma empresa finlandesa que fabricava cabos elétricos e botas de borracha quando o seu comandante, Jorma Ollila, transformou-a num gigante da telefonia móvel. E o seu sucessor está falando em transformá-la em uma empresa da internet. Na China há um negócio que vende seguros, fundos mútuos e serviços bancários via internet móvel (celulares).

Semelhantemente, no Brasil, temos um empreendedor que desenvolveu um uso inovador do celular: ele lê códigos de barras de produtos em um supermercado e compara o preço com o de outros supermercados na mesma região. É claro que há uma certa resistência dos supermercados, mas a ideia é totalmente inovadora.

O Skype, que foi pioneiro na telefonia pela internet, é um claro exemplo de empreendedorismo europeu.

Como tantos outros que estão no suplemento citado da The Economist, temos um outro brasileiro que de fato superou muitas dificuldades graças ao seu empreendedorismo e criatividade: Bento Koike foi o criador da Tecsis, que atualmente é uma das mais bem-sucedidas fabricantes de lâminas para turbinas de vento.

Bento teve a coragem de enfrentar - e vencer - um cenário bem pouco promissor: nem a matéria-prima nem os clientes da empresa estão no Brasil, e as imensas lâminas são difíceis de serem transportadas! Mas a empresa patenteou uma inovadora técnica de empacotamento para contornar o problema.

Mas o que faz com que em certos países haja muitos empreendedores e em outros, quase nenhum? Fatores culturais certamente têm a ver com isso. Na Finlândia, só 3% da população desejam ser empreendedores, apesar de haver capital de risco abundante.

A condição absolutamente necessária para que nasça e cresça um movimento de mais e melhores empreendedores é que haja um sistema de educação universitária moderno, eficiente, atualizado com os mais recentes desenvolvimentos da ciência no mundo, e que seja vibrante. Lastimavelmente, fora as habituais exceções de praxe, muito pouco disso existe no Brasil. O nosso jovem que tenha tido a chance de uma pós-graduação em uma grande escola do exterior é candidato natural a se tornar um empreendedor. Mas são tão poucos... Existem outros, é claro. São pessoas presenteadas pela vida com a criatividade do inventor associada ao desejo efetivo (não sonho) de torná-la um negócio.

Existe em vários países do mundo, e no Brasil também, uma ONG dedicada ao empreendedorismo: a Endeavor (www.endeavor.org.br). Em seu site há algumas frases que resumem claramente o que ela faz. Uma delas é a seguinte: "A existência de empreendedores dispostos a realizar grandes sonhos é fundamental para o desenvolvimento econômico".

O processo de ação da Endeavor fundamenta-se na seleção de empreendedores de alto potencial. Além disso, há um forte sentido de missão pessoal, um sonho a concretizar, uma enorme energia e a positiva convicção de que vai dar certo. E geralmente dá mesmo!

Por: Luiz de Campos Salles

 

Fonte: Revista INCorporativa (26/11/2009)

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