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O imigrante e seu móvel

Capítulo do livro de Paulo Roberto Wünsch, Os Móveis e Seus Pioneiros. Livro este que conta a história da indústria de móveis na cidade de Bento Gonçalves.

O imigrante e seu móvel

Capa do livro.

O imigrante e seu móvel

 

No período inicial da colonização, o mobiliário era bastante escasso e rudimentar sendo, em sua maioria, feito pelo próprio usuário, a partir de ferramentas que possuíam. Os imigrantes italianos, em suas habitações “provisórias”, tinham apenas como mobiliários do quarto a cama de tábuas rachadas e o baú trazido da Itália.

Com relação às roupas usuais, as mesmas eram penduradas na parede do respectivo quarto, enquanto que as melhores eram guardadas no baú, pois não havia guarda-roupas.

Somente com o passar do tempo, e a melhoria das condições econômicas, os quartos passaram a ser equipados com grandes camas, baús, e, às vezes, urinóis, tripé, mesinha de cabeceira, toucadores e berços para o neném.

A cozinha, que nos primórdios era pequenina e normalmente separada da casa e ligada a esta através de um corredor coberto, abrigava o “focolaro” – fogão primitivo. O mesmo consistia em uma caixa retangular de madeira com terra batida no seu interior, com leve declive no meio, onde ardia o fogo. As panelas eram suspensas de uma corrente de anéis circulares com ganchos de ferro, presa ao teto até o centro do fogão, denominada de “la cadena”.

Também foi muito utilizada pelos imigrantes a “siápa” (chapa), forma de fogão erguido com tijolos e com uma chapa de ferro para apoiar as panelas. Em um período mais tardio, surgiu o fogão à lenha e, posteriormente, essa evolução é completada com o fogão a gás.

Ao redor do “fogão”, encostado à parede, havia os “scami” (bancos) para que pudessem se assentar e aquecer enquanto conversavam ou rezavam.

Junto ao fogão ficava outro móvel bastante usado: a caixa de lenha e da farinha (compartimentada ou não) cujo tampo poderia servir de assento, daí muitas vezes possuíam encosto.

Por sua vez, as refeições eram realizadas em uma mesa comprida ladeada por dois “scami”, e, eventualmente, por cadeiras de palha de trigo trançada.

Findado o momento da alimentação, começava a limpeza dos objetos no lavador de louça de madeira, chamado “seccer”, que ficava inclinado no sentido longitudinal e com um estrangulamento vazado junto à parede, para o lançamento da água na parte externa da casa. Mas diante do possível vazamento de água dentro da cozinha, a alternativa foi o “seccer” externo, colocado junto ao peitoril da janela, e operado pelo lado interno da cozinha. Nas proximidades do “seccer” ficavam as louças e as panelas em prateleiras. As tampas eram encaixadas por suas alças em ripas ripas separadas da madeira, enquanto os baldes, suspensos de ganchos, na falta de um armário.

O armário característico da imigração italiana é o triangular, ou seja, colocado “stracanton”, isto é, num canto formado com as paredes um ângulo de 45°.

Quanto aos armários com prateleiras, portas e eventuais gavetas que se tornaram comuns, somente foram empregados com o passar do tempo. Este móvel, conforme a tradição italiana servia para guardar louças e toalhas, além de alimentos em caixas e latas.

Aliás, com relação à armazenagem dos alimentos, no período inicial da colonização era utilizado o “mascarolo”. Este, uma espécie de refrigerador, o qual não rebaixava a temperatura, mas que, com um bom arejamento, auxiliava na conservação dos alimentos.

O “mascarolo” era uma armação de madeira em forma de caixa, cujas paredes eram vazadas com pequenos furos ou providas de tela para  impedir o acesso de ratos e insetos. O mesmo ficava localizado em um vão de parede semelhante a uma janela, ou escavado em barranco do porão, onde a temperatura era menor e mais constante.

A rusticidade e simplicidade destes móveis primitivos têm relação direta com o beneficiamento mecânico da madeira e as diferentes necessidades prementes.

 

Fonte: Os móveis e Seus PioneirosBento Gonçalves -, Paulo Roberto Wünsch – Bento Gonçalves, RS: Editora Grafite, 2004.

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